quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Os demônios de um passado eterno


         A cara enfiada na poça, entre o asfalto e o meio fio, tem 178 anos de idade. O terno azul, esfarrapado com os bolsos vazios lhe dá um tom formal e até um pouco tendencioso, mas os sapatos sociais rasgados e desgastados mostram que é um homem trabalhador e sério, desempregado, claro, mas não podemos negar que é trabalhador. A chuva vai caindo forte e escorrendo pela calçada lhe dando um banho de água barrosa enquanto os que passam ignoram sua presença: já é sua quarta morte e continua vivo.
    Ficou ali com a cara enfiada entre a poça e o asfalto. Esfregou a boca no chão e deu baforadas fedidas de álcool e tofu. A barba se lambuzou de barro com pedacinhos de folhas que desceram pela enxurrada.  A chuva vinha caindo com força lavando o terno de azul desbotado, grudando a roupa na pele branca sardenta e pouco peluda. Virou-se pra tirar a água da cara. Os carros passam ao seu lado e ele se vê como o indigente que é. Não fosse a água, seu cheiro tomaria meio quarteirão e afugentaria as dondocas com crianças de colo. É isso que ele é: um bêbado caído à beira da calçada. Os passos apressados e estranhos das pessoas no alto, e o profundo sono que se abateu em seu corpo quase imortal. Não bebo mais, pensou, assim como das outras vezes quando caiu de tonto na praça, no banheiro público, debaixo da ponte, na mesma rua... Deus me salve, me salve! E apagou de novo.
    Entrou num sonho esquisito com coelhos imensos que fugiam duma mata em chamas; corriam em desespero saltando pedra imensas; alguns presos entre duas labaredas e seus pelos, branquinhos, estavam encardidos pelo pó preto do fogo. As árvores gritavam e...
- Levanta. – Disse a voz. Um chute na perna direita e o tom ficou mais grave. – Levanta daí, Ozório! – Forçou-se a sentar e manter o corpo ereto. Mal conseguiu enxergar quem gritava; a cara de frente pra luz do poste. Só uma sombra ali. Passou a mão no rosto, sentiu a barba cheia de coisinhas esquisitas e o gosto de vômito disputando espaço com os dentes podres. – Eu não sei como ninguém te roubou... aqui passa gente esquisita o tempo todo e todo dia tu aí caído de tonto... – mais vômito. Dois jatos e uns pinguinhos no final. O cara da voz ficou calado só observando o estado daquela pobre alma.  Limpou a boca. Começou a sentir frio e percebeu o terno barato molhado e a rua vazia. Já era bem noite e nenhuma alma viva vagava nas ruas. O boteco fechado; só a luz de fora acesa e uns mosquitos voando ao redor da lâmpada. O supermercado de portas baixas; a loja de celas e rações com um carro velho estacionado na porta. Vazio.
- Quanto tempo fiquei aqui? – A cabeça latejava.
- Eu que sei? – Deu de ombros. – Um homem da sua idade devia se dar ao respeito... Só acho. – Sentou-se no meio fio junto dele.
Silêncio.
- Queria ta morto... só isso...
- hm...
- O que quer dizer com “hum...”?  
- Nada. Por que não se mata então? Fica aí empacado no meio do caminho, não vive nem morre, não decide a vida. – A luz do poste apagou. A rua deserta como se o mundo tivesse acabado. As lixeiras reviradas e cachorros passando.
- Num sei. Apesar de tudo eu tenho medo... – tomou um gole da garrafinha que guardou no paletó azul. – Já morri quatro vezes e voltei.
- Então não morreu. Quem morre não volta. – Disse o rapaz.
- Você sabe de onde veio e pra onde vai?
- Claro que sei. Vim do bairro Ordene e volto pra lá agora! – Disse com convicção. Franziu as sobrancelhas “velho idiota”.
- Se eu falasse disso, mas não falo. Você não sabe de onde veio, nem pra onde vai, nem o que vai ocorrer daqui uns dias consigo, nem se os planos vão dar certo...
- Além de velho é vidente agora? – Riu com sarcasmo.
- O que te move? – Ignorou as risadinhas.
- As pernas...
- O que te move? – Insistiu.
- Não sei... os sonhos?
- Estais no cio o tempo todo. O que não faz por mera vaidade? Te falo que escolhe a melhor roupa por medo do deboche dos outros.
- Claro que não. – Negou. Quase ofendido. – É você que vive no cio, não para um dia sem estar tonto pelas ruas.
- É vontade de trepar. Só isso. Fez faculdade não por amor ao conhecimento, se fosse isso tinha estudado sozinho, vivia entre livros, só estudou pra ter dinheiro, e sabe por que conseguiu as coisas?
- Hmm...
- Medo. Se sonhou ter alguma coisa foi por ver nas mãos dos outros e, querendo ou não, teve inveja, pequena, insignificante, mas teve. Não existe sonho, só a imaginação de alguma coisa. – Do outro lado da rua dois cachorros brigavam pelo lixo revirado. – Já fui tudo o que você pode imaginar, já fui médico, engenheiro, carpinteiro, eletricista, já viajei o mundo... te digo que não sou completo, só fui algo porque me faltava algo. E o vazio continuou.  
- Te falta paz de espírito? Ou álcool? – Riu. Respeitosamente.
- Quando bebo tenho o que nunca tive: paz. Fui ficando velho e as coisas do mundo aos poucos pararam de servir, já não queria trepar, então roupas caras perderam o sentido. – Fiquei só com esse terno barato da formatura do meu filho. – Apontou pra si. – E ele morreu faz oitenta anos. – Dali lembrou dos filhos que morreram doentes, dos outros que nasceram saudáveis, da fé em Deus que nascera e morrera inúmeras vezes, lembrou de ter comido carne de Urubu quando menino e de ter acampado na beira do rio.
- Acho que é mentira essa sua história de ser tão velho. Não tem cabimento não! – Disse indignado.
- Pois que não creia. Teve gente que viu tudo. Os mais velhos da cidade lembram de mim, quando pequenos, perto dos cento e dez anos.
- É... tá bom... – não quis render assunto.
- Tive fazes, igual você teve. – Retomou. – Lá pros dezesseis anos achei que nunca ficaria velho e ali vivi como escravo das coisas do mundo. Fiz o que quis, fiz um monte de gente chorar, quase matei meus pais de desgosto...
- Se eles ainda fossem vivos já teriam morrido de desgosto... – interrompeu a fala de Ozório. – Ele fez cara feia e retomou.
- Rum... vi os dois morrerem. O pior nem foi isso...– Tomou outro gole. – Pior foi ver eles envelhecendo sem que eu pudesse fazer nada, dia após dia fui perdendo eles. Lembrei do tanto que os fiz chorar. E era diferente de amar outras pessoas, quando é gente da rua, que se aprende a amar. Na verdade, amor mesmo só de pai e mãe, o resto a gente engole. – Tomou mais dois goles. Desceram queimando a garganta. Fez cara feia, olhou ao redor. A rua incrivelmente calma, nem parecia ter estado tão movimentada. – Com o tempo, o amor seca, se acaba, se torna frio, as pessoas vão perdendo o sabor, os dias se tornam eternos ciclos. Daí que digo: vivi no cio quando novo. Quem achei que amava foi ficando sem graça ao ponto de ser melhor trocar de pessoa. Tem 178 anos que troco de pessoa todo santo dia, e não morro, e elas estão todas mortas e as únicas que lembro todo santo dia são meus pais, são os demônios que me possuíram com um amor eterno... veio deles a maldição de nunca morrer. – O garoto ficou calado. Preferiu ficar assim. Respirava fundo, contemplava a rua, jogava pedrinhas longe, mantinha a atenção. - Tenho 178 anos de história, de coisa acumulada, tem gente que tem isso e é novo... é gente que vive sozinha no mundo porque desaprende a conversar, não suporta os outros, sofre com a solidão e ainda tem a desonra de nunca se diminuir pra ninguém... tenho o defeito de não saber amar, garoto. Se soubesse, tava enterrado o com meus filhos ou com as esposas que tive um dia, mas todos foram morrendo, definhando, e não me entreguei. Só vi fantasmas.  
- E seus pais, não os amou? – Desajeitou-o com a pergunta.
- Era minha obrigação. De qualquer forma ia amá-los mesmo. – Disse, nostálgico. – O silêncio voltou. O barulho distante dos cachorros mexendo o lixo. Passou um casal de adultos, depois um menino os acompanhando. Parou e acenou para Ozório e para o amigo, depois voltou correndo para os pais.
- Ele vai lembrar disso quando for velho. – Disse Ozório. – Vai lembrar como um momento especial. Um velho bêbado e um menino, sentados na calçada. – Parou. Tirou o paletó, colocou a garrafinha no meio fio. E foi falando enquanto tirava. – Vai aprender a odiar determinadas coisas, vai amar outras, e até as que amar, querendo ou não, vai ter que fingir odiar. É assim que funciona as coisas: ama-se o que lhe é permitido amar. Se você quiser quebrar a regra, os outros deixam de te amar...
- Mas era pra nos amarmos incondicionalmente!
- Ainda bem que disse: Era. Mas acaba que para determinadas coisas tem que ser assim, não da pra suportar qualquer coisa. – Respirou fundo, puxou do passado a dor das memórias. – O problema maior é que odiamos as pessoas por coisas que elas não escolhem ser, e elas sofrem por serem odiadas, e não vão mudar por serem odiadas, e o orgulho age, e elas se tornam piores que antes. Daí vem o ódio do mundo, de gente que não sabe porque odeia, nem de onde veio o ódio, nem o motivo, nem se querem ver nascer nos outros aquilo que não fizeram germinar nelas próprias.
- O que quer dizer com isso?
- Todo ódio é irracional. Não sabe de onde veio nem pra onde vai.
- É claro que sei. Sei bem quem odeio e sei o porquê! – Disse, indignado.
- Não. Não sabe! Quem fala com ódio fala de si e da imagem de si que vê no outro. O bom e justo fala do outro, só do outro, e não vê marcas de si no objeto que julga. O justo condena o assassinato por ver toda a humanidade representada num corpo caído. O justo condena a extorsão, a escravidão, o ódio, não por se ver praticando aquilo, mas por perceber toda a humanidade representada em cada corpo, em cada sorriso, em cada suspiro de dor e sofrimento... odeio o que sou, odeio pela vaidade de me ver diminuído ou nivelado àquilo que sempre fui, odeio-me por me ver diante de uma verdade que sempre neguei... sabe qual o maior defeito, a falha de caráter que pariu o mal no mundo?
- Hum...  
- A verdade é como a água fria de um lago. Alguns suportam nadar nela, outros se limpam nela. A maioria prefere feder e disfarçar a podridão das mentiras acumuladas em seus corpos com perfume, e quanto mais sujos, mais perfume, mais roupas caras, mais fingem nada acontecer e, depois, quando alguém os lembra do lago, por medo dele o por vergonha daquilo que se tornaram, debocham de quem fala, agem com ódio... ou seja, garoto, zombam de quem fala a verdade porque não podem combater a água fria com seus corpos frágeis... não sabem de onde veio o ódio.
   Falou dos inúmeros acidentes que sofreu e quem em cada um perdeu uma parte da família, como uma maldição, ou um pagamento. Contou da vez que saiu pelo mundo, aos dezenove anos, levando na mochila duas mexericas, uma garrafa de café roubada do tio Rubens e doze notas. Quase morreu de frio na primeira noite. Ali que comprou álcool pela primeira vez e continuou caminhando até atravessar as serras, subiu pelas margens de um córrego até chegar na nascente do rio Ratai, no topo do pico Montezuno. Perdeu-se, fora atacado por um enxame de abelhas escondidas num cupinzeiro. Correu e se jogou no poço da cachoeira, onde quebrou as duas pernas e, por milagre ou não, fora salvo por uma força invisível que o empurrou até as margens. – É o que contou.
    Teve que se arrastar do topo do monte até a estrada, comendo terra, sendo dilacerado pelas formigas. A dor lancinante o fez apagar. E foi o rum que lhe deu forças.
    A volta ao mundo durou uma semana, lhe custou as duas pernas quebradas, uma mãe infartada de desespero, o corpo dilacerado por formigas e abelhas... e um homem de 178 anos.



 
Share:

terça-feira, 18 de julho de 2017

Análise da banalidade de um povo

   A semiótica, como já bem entendido, é a ciência dos signos. Seu papel é ajudar a entender a construção do significado nas comunicações diversas. Sua estrutura está em constante crescimento, expandindo seu universo de análise na medida em que a variedade de linguagens se diversifica em gênero, número e complexidade. E dentre todas, volta-se a atenção, aqui, para o meme, estrutura comunicativa proposta por Platão em seu Livro “a república”, que teve seu sentido revisado pelo biólogo Richard Dawkins em sua obra “o gene egoísta”, de 1976. Na publicação o livro, o contexto se referia às estruturas gênicas e a capacidade de relicação, fecundidade e perpetuação. Se tal ideia for expandida, como fora, liga-se às capacidades da linguagem de expansão renovação. 
    A língua carrega consigo uma série de mecanismos para se "manter viva", por isso a ideia de tempo, modo, pessoa e voz, particípio, gerúndio e infinitivo parecem complexas, mas na verdade fazem o completo oposto. Precisamos expressas nossas vontades em relação do mundo, comunicar um feito do passado, predizer algo pretendido - como uma viagem ou um plano de vida -, consolar uma alma atormentada, descrever uma angústia ou expressar uma alegria. Imagina se faltassem palavras? Ou se as coisas ditas fossem incompletas ou insuficientes? Ou se a língua fosse estática, como descreveríamos as novas realidades existentes? (Há autores que insistem na ideia de que o mundo só se desenvolveu de tal forma pela ação da linguagem, coisa que também creio) Como amaríamos se não existissem poemas ou histórias sobre tal sentimento? O sentimento existiria do mesmo jeito, mas entenderíamos as coisas de forma distorcida, tal como a ideia de guerra e terrorismo aqui no Brasil, ou a "frieza" do povo Europeu, coisa incompreensível para nós, tudo pela ausência de uma literatura forte - ou de uma realidade - que nos mostre o horror da guerra, do distanciamento provocado pelo clima gelado, da história formadora de nossa nação - inexistente na memória comum - e uma série de outros fatores que, unidos e misturados, explicam nossa incapacidade para imaginar e vivenciar determinadas coisas - fatos, lieteratura pobre no assunto (ou pouco divulgada), produção artística ociosa no passar dos séculos, referência cultural e intelectual importada ad nauseam, e por ai vai. É claro que nossa literatura é forte e potente, mas em áreas conhecidas por todos, escritores como Tolkien ou Julho Verne raramente encontram equivalentes nos nossos cânones literários. Temos Machado de Assis, Moacir Scliar, Mario Quintana, Castro Alves ( meu poeta nacional preferido), mas o fato mais doloroso é que quando procuro fantasia, não me recordo dos brasileiros, vou ao exterior, leio Edgar Allan Poe, Henrique Filipe Lovecraft, meu idolatrado e imortal Stephen King, Thomas Mann, Gabriel Garcia Márquez, leio as odisseias - por ai vai -, não é minha intenção esfregar autores na sua cara. O que quero dizer é que parte do que somos vem da riqueza e da diversidade de nossa literatura, ela profetiza e descreve o mundo real e a inconsistência e imprecisão de nossa realidade está profetizada e descrita na nossa literatura por séculos. 
     Voltando ao ideal linguístico, agora. Quando escrevi "adestrados", procurei destacar os processos e mecanismos para o funcionamento de uma língua, na época, porcamente escrito - pretendo reescrever logo - podemos destacar uma série dessas pequenas engrenagens, coisas que usamos todos os dias, realidades lógicas que ocorrem o tempo todo no ambiente mental e não nos damos conta da complexidade e do incrível valor da estrutura linguística. Posso citar o poder da construção aplicado em uma frase:
1)      Ficou ali com a cara enfiada entre a poça e o asfalto. Esfregou a boca no chão e deu baforadas fedidas de álcool e tofu. A barba se lambuzou de barro com pedacinhos de folhas que desceram pela enxurrada. Quando reescrito, sempre corto palavras, melhoro tempo verbal, sumo com os pronomes.
2)      Ficou com a cara enfiada entre a poça e o asfalto. Beijou o chão com os dentes podres e deu baforadas fedidas de álcool e tofu. A barba ficou suja de barro e de folhas que desceram pela enxurrada. Poderia citar infinitas formas de se reescrever um texto, em todas seguindo a ideia de cortar palavras desnecessárias, diminuir a complexidade da ideia, não usar palavra pomposas e estranhas como “Então ela proferiu... ” ou “Ele acordou com frio: a cama, ainda quentinha, cheirava o amor que fizera até de madrugada. Seu amor já saíra e as cortinas balançavam com o vento gelado da manhã – dai tu estraga tudo – e proferiu palavras de tristeza... Pois faça-me o favor. Quem acorda sozinho de manhã, no frio da porra, e profere palavras? Você fala, e só isso... seu amor saíra sem anúncios – só queria trepar.  As cortinas balançavam com o vento gelado da manhã, os sininhos da varanda soltavam um barulho calmo, a cama de colchão alto, com o lençol amarrotado e vazio na outra ponta. Nem um bilhete – pensou – ela não vai voltar! – Constatou. – Eu que virei a puta. Vou passar a vida só comendo bocetas e não vou me casar. – Torceu a cara. Engoliu o choro e se deu a sentença. – E nem vou ter filhos.  – Lá fora ventou mais forte, a cortina subiu e mostrou o céu escurecido, as palmeiras da orla da praia sacolejando e tudo esquisito, denso, como ele se sentia. Um garoto puta come mulheres casadas no motel paraíso, na beira da praia, de sexta pra sábado, e é vazio, todo vazio, igual o quarto.    Viu? Sem polidez com as palavras “boceta” e “puta”, é pro leitor torcer a cara mesmo. Dai ele balança a cabeça “nossa, que... horror, que boca porca... que desnecessário... credo... agora leio o resto. “
               
         Ai que está o poder da coisa. As palavras certas, colocadas no lugar certo, sem medo de se indecente ou vulgar, o único medo que temos é o da INEFICIÊNCIA. Numa trepada ninguém fala “isso! Espanque minhas nádegas! ”, ou “Isso! Perfure essa vagina”, ou “Nosso coito foi estupendo!”. As palavras carregam significados adquiridos no tempo e um eu te amo não tem o mesmo valor de eu também, assim como uma mãe morta não é o mesmo que minha mãe morta. A ordem muda o valor, os advérbios não trazem mais valor, pelo menos em alguns casos podem tornas a vida estranha, pode acreditar minha vó está muito morta, minha vó está extremamente morta, minha vó está super mega blaster – não sei se são de intensidade, modo... ou a merda que sejam - morta. Estranho, não?  Todas essas expressões surgem da ideia de léxico interno e externo. Assim o interno de uma língua, representado pela variedade de seus mecanismos para a criação e atualização das palavras em seu interior, como adição de terminações em um substantivo para que vire um verbo no presente contínuo ou a conversão de uma modalidade de palavra em outra apenas pela adição de uma coisinha no final do vocábulo.
    E chegamos a tal ideia do meme. Falamos da narrativa, do léxico – porcamente porque não estou com saco pra isso – do bom uso das palavras e quero falar da análise que fiz de um meme em um trabalho da faculdade. Eis ai:
   Da publicação do livro até a atualidade, a ideia de ‘”meme” assumiu outro sentido e passou a ter um engajamento digital, diretamente atrelado às redes sociais, que para RAMALHO (2010) “são parte integrante da sociedade moderna”, tornando-se elemento fundamental na construção dos laços sociais na modernidade, bem como para a construção de novas formas de se entender e descrever o mundo. A linguagem digital assume signos próprios, bem como uma volatilidade própria na mudança e na obsolescência do conteúdo que ela própria cria, mas é um importante veículo para o entendimento humano e “O que entendemos hoje como mídia social nada mais é do que a forma moderna de se praticar uma das principais necessidades do homem: a socialização.” (RAMALHO, 2010, p.11).
     Assim, no meme sobre o presidente brasileiro Michel Temer existe uma associação entre dois personagens de diferentes contextos unificados em um contexto jocoso. No corpo de Miley Cyrus é colocada a cabeça de Temer, como numa transfiguração, trazendo elementos de um ao outro, mas junto das formas físicas temos os significados abstratos, e isso acaba por criar uma tonalidade de humor e de crítica social, assumindo uma personificação direta da ideia multimodal que assegura a comunicação de diferentes modos textuais, e, consequentemente, interpretações. Um novo signo é criado a partir de vários elementos recortados e rearranjados uns com os outros, desenvolvendo uma nova imagem mental da estrutura, tomando um novo contexto semiótico. No situação original de “i came in like a wrecking ball”, a cantora destrói paredes sentada em uma bola de demolição, fazendo movimentos repetidos, assegurando o fim de toda a ordem e organização da cena como vista no começo, coisa que é associada automaticamente ao governante, reforçado, também, pelo comentário que vem logo abaixo da imagem.  Ele absolve o significado de um outro contexto em si, e o processo de inferência de sentidos segue o caminho de associar os elementos de destruição no videoclipe, a bandeira do Brasil, a posição dos objetos em cena e o significado abstrato da coisa, nesse sentido a ideia de Hodge & Kress (1988), de que todo texto é multimodal, assume a possiblidade de que uma imagem também é um texto e de que nela existem inúmeras outras referências, bem mostradas no meme em questão. 



Share:

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quem é o dono do mundo?

       Tem algo que não disse sobre os jovens: as formas que um dia tivemos, os estilos e os modos como operamos, tudo carregou uma base abstrata. Nossas palavras, nossas roupas, nossa educação formal, o interesse que alguns têm pelo mundo... tudo nasceu de um referencial externo que um dia amamos e nos permitimos ser de alguma forma. A vida é a arte de imitar e recriar, a eterna mimese. Pois o novo fora nascido do velho, e disso veio tudo, e se o novo não tem as marcas do ambiente, suas influências não são dele. A estranha e incomum atitude do garoto não é uma ação própria. Seu corpo é a marionete de algo muito maior e por sua boca falam muitas vozes, incontáveis, e nenhuma delas veio daqui; suas vozes são estranhas. Ele é raso, vazio, oco por dentro e por fora, e serve de papel em branco para o mundo escrever uma história que se repete em todos, um a um no eterno ciclo daquilo que apotéria. O apotérito é aquele que manifesta, em essência e maioria, uma cultura que não é de seu meio, estando subordinado à uma cultura externa, desprezando e subjugando as capacidades históricas e ambientais que permitiram a sobrevivência dos velhos costumes. Em essência, o que é mais velho resistiu mais, e só a prova do tempo pode demonstrar a validade de um costume e se ele vai ou não se estabilizar numa sociedade. O que se prendeu nas correntes do tempo é passado de geração em geração, e quanto mais novo e mais global um modo de viver, menos estável e mais rapidamente se desestabiliza, podendo se classificar como um “apotéria”. O desprezo pela verdade, a pouca idade, a ansiedade, o desejo de ser visto por todos, o desespero pela aceitação, a incompreensão de si mesmo a ideia de um mundo perfeito e momentâneo: a formula perfeita para a apotéria.

      Toda cultura que nasce e morre rápido tem um único dono: é a fome insaciável de ser algo que não se sabe o que. O dono da cultura comum é o senhor de todas as ordens. E todas as sociedades que mudam de forma dia após dia, as sociedades apotéricas, têm dono, e é dele que nasce grande parte do mal que faz jorrar sangue inocente pelas ruas.
        E já te anuncio, por entre essas linhas, entre a bagunça que virou: uma coisa não pode ter dois donos, não existe meio dono, não existe coisa pública. Só há a vida particular e a propriedade de um. Todo o resto não tem dono. Não existem “donos”, só existe um, e de um sai a voz para todos. Todos bebem da mesma água, mas ninguém bebe com a mesma boca, nem fala com a mesma voz... e a vontade de todos não é maior que a vontade de um, porque não existe todos, não existe o coletivo, somos só eu e você. Todo o resto é alucinação. E a mesma loucura que atenta às mentes sujas que acreditam no contrário, desabrocha na juventude que rasteja diante de um ídolo ou se entrega aos caprichos de qualquer artista pomposo. 


Share:

terça-feira, 6 de junho de 2017

A grande tragédia


   Sabe do que se trata a vida? Uma grande batalha de egos, não entre os grandiosos homens ou mulheres, esses não precisam disso, mas entre os medíocres, os bostinhas, aqueles que ainda cogitam ser algo que nunca serão. E o pior é que os bostinhas só parecem ser grandes porque são olhados de baixo, por aqueles que se curvaram diante deles. A vida é sobre gente pequena que vai ser assim até a morte, e vão servir de escada para os bostinhas crescerem e tomem voz repetindo um discurso bobo que qualquer um percebe. A batalha de Egos entre o professor e o aluno, onde o que ensina parece dono da verdade e as palavras que brotam de sua boca parecem cortar qualquer interesse por aprender. Sabe aquele professor que faz tudo parecer difícil? Então, ele é um bosta também. Ele é tão pequeno que para só pode ser grande diante do desespero de seus alunos. Ele passou a vida estudando e não aprendeu a ensinar aos outros como aprender... o homem velho e barrigudo que te sufoca com frases longas e com textos intermináveis, que tira seu sono como um pesadelo acordado, é dele que falo. Ou da mulher velha que não casou, que não teve filhos e que agora é azeda, choca, que seca a boca dos meninos mais novos com medo da reprovação, e que não sorri, que te olha com desprezo, que tem orgasmos imaginários com sua angústia, que sorri diante de suas limitações. É dessa gente que falo, essa é a batalha de egos. Não demora muito e alguns se matam, eles perderam a batalha dos egos. Ninguém nos ensinou a estudar, nenhum deles perguntou se temos medo do fracasso ou o que deixamos pra trás para estamos aqui. De fracasso em fracasso, um sorriso novo na cara do professor. De fracasso em fracasso, um corpo novo.
  Seja a minha escada!
  A batalha de egos não é só isso, ela desabrocha no mais espero que sorri diante do mais lerdo, que ri do mais humilde, e que faz seu circo particular com os que deveria cuidar e amar. Eles foram sinceros, mostraram o quão pequenos eram. Sem máscaras, sem meias palavras, disseram, é só isso, é tudo o que tenho. Receberam risos, o deboche, o desprezo, e o mesmo que despreza é desprezado, faz-se um circo no final de tudo.
  Estou cansado de gente que não vê a dimensão prática do mundo e que só vive no mundo das ideias, que não resolve nada, e que só imagina um mundo perfeito. São crianças que não cresceram, eternos birrentos.  
  É tanta gente podre respirando o mesmo ár. Tanta gente pequena que precisa ser vista, que precisa de cuidados para crescer, sabe? Gente que não sente mais o peso da bota esmagando seus corpos e que de tanto ser pisado já se acha parte do chão. É tanto doutor pisando nesse chão. O chão de terra batida, de esgoto a céu aberto, cheio de lixo e entulho, não me parece digno de um doutor, não é? Tem que falar no tom certo, DOUTOR! Se não o DOUTOR não gosta, fica chateado, joga na tua cara o fato de que estudou uns anos aí e que você é um analfabeto. Então fale sempre no tom certo: SENHOR DOUTOR!
    Enquanto isso tem gente lá fora morrendo de fome, tem os desesperados por ajuda que mal sabem pronunciar DOUTOR, tem a fome, a angústia, o desespero, o desrespeito. Tem palavras bonitas, tem gente podre que se deita à luz de títulos imaginários que se dissolvem quando tocam o mundo real, tem o choro que não seca, tem o texto do escritor que nada fez pelo mundo, tem eu, tem você, e tem a vida. 

    
Share:

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Só o remorso e a culpa podem enfraquecer a conduta demoníaca.

    Meu povo viveu sempre no cio. Para eles, os desejos do corpo tinham mais valor do que as coisas vindas da alma, mesmo que fossem singelas e puras, tudo era camuflado por uma essência sexual primitiva, quase animalesca, impressa no modo de agir e pensar de toda uma nação acostumada em suprir tudo aquilo que cogitavam. As moças, prenhas antes de adultas, não se casam. Abortam e corrompem a cria. Dilacerado o fruto do ventre, as pernas não param fechadas, e delas, assim como o desejo, o orgulho brota, emana aos montes, se prostitui ao meio, reflete a casa de poucos livros, de palavras incompletas e mal formuladas, que tantos tentam camuflar como preconceito julgar, e dali nasce e cresce a nação que sempre vive no cio. São incompletos e mínimos. A racionalidade dessa gente é seca, assim como a nobreza dos atos, dos que olham torto, daqueles que inflam o ego e formam um palco onde o piso é construído sobre os ombros dos mais fracos, e estes, por sua vez, estão preocupados demais trepando por suas vidas. E das fofocas, tanto tenho a falar, tantas almas jogaria em Calunir. Nas bocas infla o ego, palavras vazias e desrespeitosas. Já não basta que estejam sempre no cio, eles se acreditam donos de uma moralidade superior, tão dolorosamente superior que produzem sombras imaginadas para cobrir os próprios erros. Depreciam, caluniam, desprezam, rezam.    
       Só o remorso e a culpa podem enfraquecer a conduta demoníaca. Só o remorso converte, mas só o castigo demonstra. Ainda digo; se o mal não fora destruído em sua base, só nos resta persegui-lo em sua face final, já formada, e se o remorso não existe, é pela dor do fogo que se queima a praga venenosa, e só por ele. Mas o vingativo diz: Para que ele veja e sinta parte daquilo que fez e que disso sofra ao ponto de não praticar mais, ou que morra assim como todos os outros e que essa raça de imundos seja exterminada. E ele se vinga, mata e destrói o iníquo, ou o pune para além daquilo que praticou, e mal volta, cresce em tamanho e intensidade, e ele se assombra, pergunta-se: “Mas como? Espanquei-o até que perdesse os sentidos, quebrei seus ossos até que ficasse aleijado. Fiz o mesmo com todos os outros, mas não pararam de surgir, cada dia mais, com mais força e intensidade. Vinguei-me, pois, de todos eles, o tempo todo, e continuaram. E agora já são muitos”. Eu te digo, esses homens, mesmo que um dia deixem de praticar o mal, será por medo da pena, e isso funciona só enquanto todos olham, mas quando os olhos da justiça são tapados, eles voltam e praticam tudo de novo, e de novo, e fazem com o prazer da impunidade, e se deliciam por saberem disso, pois sabem que um dia podem ser pegos e serão punidos até a morte. Agora os que já praticam o mal, que sabem do risco de morte caso sejam descobertos, ou abandonam ou continuam até o fim. É o caso onde inibimos o começo, mas forçamos que já pratica que vá até que tudo esteja consumado.



Share:

domingo, 14 de maio de 2017

A coleira vartoliana


    No ponto em que estamos, a teoria vartoliana caminha para seu estado abstrativo, o que significa que seu papel agora é de testar teorias em seu próprio plano de existência, e verificar as possibilidades invisíveis que estão por trás dos entendimentos comuns. O Vartólium, entidade unificadora de todas as coisas, nos servira de campo de prova. É nele que que as estratégias calunizadoras são testadas; se o senhor ainda entendeu t os termos aqui ditos, leia o julgamento da moral, lá dou introdução a esse momento da série literária.
     Antes de tudo se aniquilar em a sociedade dos órfãos, todos os planos de julgamento foram extrapolados até o ridículo em que a realidade se confundia com o abstrato, e o abstrato se emaranhava com a vida comum. Pois bem, a ideia de um apocalipse econômico ou viral sempre foi divertida ou eufórica, e é verdade que se tem um modo possível de o mundo acabar é pelo viés político. Eu confio em outras formas, mas a política é a mais tangível para nós, e se quisermos sonhar com o fim do mundo, devemos começar imaginando um apocalipse social e político antes de qualquer outra coisa.
    O que vamos discutir agora é o conceito de bolha psicológica, onde uma ideia trivial é forçada a ser abstraído até os limites da irracionalidade, tornando-se uma coleira invisível que o próprio calunizado se permite vestir. O que quero dizer? Veja. Existem planos significativos nas palavras. É o que se chama de signo, uma forma e um nome; os dois juntos nos dirão o significado. Coisa esférica que quando chutada rola pelo chão; o senhor logo associa a uma bola, poderia ser outras coisas, mas não entraremos nessa parte. Outro exemplo; estrutura que ilumina a casa durante a noite; lâmpada – mas também pode assumir outras formas devido a sua funcionalidade. A questão é que para uma determinada função, iluminar, aquecer, apoiar, existe um nome, como um caminho até aquilo, mas ele não é o mesmo para todos, variando de amplitude. Para alguns, a coisa que ilumina a casa é uma vela; outros, uma lâmpada. O caminho até o conceito do objeto é diretamente relacionado à função que ele tem na vida do sujeito. Objetos diferentes podem ter o mesmo propósito de existência, e o valor que ele representa na vida do usuário é o que ditará a imagem mental imediata; se é uma vela, ou lâmpada.
   Mas algo diferente acontece quando o objeto é abstrato. É aí que a teoria vartoliana age e da vida à bolha psicológica.
    Queremos caminhar, nesta série literária, para entender e denunciar ao mundo as formas mais absurdas de escravidão, e posso te dizer que essa é uma delas. O calunizado também faz o caminho contrário, associando palavras a ideias – como todos nós fazemos – mas esse mesmo percurso pode ser alterado e distorcido para que os resultados satisfaçam o desejo de um pequeno ditador. Como? O mesmo que gera a metamorfose no calunizado é o que propõe salvá-lo dela. Cria miragens interpretativas, faz aparecer correntes e amarras onde nunca existiram, questiona o valor de seus amados, gerando uma série de inimigos invisíveis. O calunizado, assombrada pela magnitude do caos, logo abre fogo contra todas as feras marcadas com o símbolo da opressão, símbolo esse criado por seu calunizador. Agora ele age como um cão raivoso que ataca quem sempre o amou apenas por estar no escuro da noite.
   A coleira vartoliana age, e o cão colérico morde a todos sem saber que o inimigo real é quem o ordena. O dono da coleira faz ferver seu sangue, e só quem ama-o pode ser mordido. Depois de dilacerar a família e os amigos, sua raiva já não tem mais apoio, e em um lapso de serenidade, se vira e contempla seu real opressor. E percebe, depois de tanto sangue rolar, que se fez escravo das palavras.
  Persistindo na mesma linha, a vaidade e a arrogância também podem ser usadas no processo da coleira vartoliana, estabelecendo inimigos com base no desejo comum de sempre portar a certeza. Para os que não suportam o fato de errar, um ombro amigo, acolhedor, cego às falhas, é a semente mais próspera para a árvore de frutos podres. Apoie um sujeito arrogante, faça-o acreditar em uma ideia e ele defenderá aquilo com a própria vida. Se ele for inteligente, o processo se consuma em diversos níveis e sua mentira é propagada aos mais próximos e a toda e qualquer alma que depender das habilidades intelectuais da vítima em questão.
   A embaraçosa estrutura que estamos discutindo aqui tem vida própria e flui até nas almas mais puras esperando sua ativação, e por isso é um componente importante na teoria vartoliana. 
     
     " Este é o tempo ditado para que todos eles sofram com a solidão dolorosa de Calunir e que cumpram suas penas no anonimato, com a indiferença de todos os outros prisioneiros, e assim sintam a ausência de atitude que um dia praticaram contra o mundo. Os que não agiram não sofrerão ação alguma." 


Share:

domingo, 7 de maio de 2017

O bobo alegre


   Lá vem o bobalhão. Fala de boca cheia, cheio de ares.
    Cospe palavras belas, de belas obras, sem ao menos gostar delas.
    Não para um instante de sorrir, dizendo coisas que soam lindas. Cambaleia de um lado para o outro, olha para os céus, perde-se em sorrisos gigantes ao amar seus ídolos. Bate palmas, se orgulha da grandeza de seus amados ídolos. Ele os ama, ama com todo corpo e alma, e por isso se acha mais esperto que os outros. Cita palavras bem complicadas, bem rapidinho, de última hora, de surpresa, sempre de surpresa. Ele é bom em falar de grandes homens, creio eu que deveria se deitar com eles e acabar com o fogo que tem.
     Como eu dizia? Ah... ele cita de surpresa, tão de surpresa que ninguém entende, e depois faz cara de assustado, assombrado com tamanha atrocidade contra o nome sagrado de seu ídolo. Não demora a se assombrar mais ainda com a ignorância dos outros quando continua a recitar os nomes mais pomposos do mundo. O bobalhão não entendeu o que leu, e se entendeu, só repete, repete e repete, e acha que ganha vantagem com isso, afinal, concorrer com os livros é difícil. Não sei quem é mais escravo do autor, as páginas do livro ou o leitor.
  Ah! Ele faz pior. Tem o bobalhão que se acha grande só por ter lido algo, e pior, ele não entendeu o que leu. Não bastasse isso, repete aos montes as ideias dos outros como se fossem santas. Bate palma pro falador e o defende a frente de tudo.
   O bobalhão engole livros aos montes. Acha que entendeu. Faz o mesmo com os filmes. Assistiu a todos, sabe todos os nomes, mas não sabe nada de verdade. Ficou afogado nas imagens e nas letras, tão afogado que não pensa, não vê, não sente.
     Mas o bobalhão ainda se assombra com quem não leu. E conta vantagem com isso, se assombra com quem não gostou dos clássicos. Se ele pudesse, dava pra todos eles, mesmo gostado tanto assim daquilo que eles escreveram. O bobalhão gosta dos lindos pés da dona flor, dos lábios carnosos de lindinha, do grão de areia maravilhoso descrito na obra clássica, da bunda da morena. Mas o bobalhão não conhece ciência, nunca leu economia, nem história, nem filosofia. Ele é tão bobo que até a receita de bolo, se escrita por um clássico, vira a história das grandes navegações dos pepinos. Ele realmente ama muito a literatura, ou melhor, os autores, e que fique bem claro, só os autores.
   O pobre bobalhão está tão preso nos autores mortos que já não entende as palavras dos vivos, e nem a vida.
     Ele chora com a mesma história, ama a mesma pessoa, se desprende a amar todo o imaginário, mas é incapaz de amar em vida. É vazio, e não entende que antes de imaginar algo, deve se sentir, e se não tem valor para vida, não te vale de nada. 


Share:

inscreva-se!

Total de visualizações

João mendes

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
A parte que vos toca é bem diversa. Aqui e ali, neste sincero e humilde blog, veremos os mais diversos pensamentos, todos compondo uma única série literária - a teoria Vartoliana. Com a leitura completa dos romances e contos, os senhores entenderão o contexto e perceberão que minha literatura tem várias faces; instrutiva, reflexiva, didática e, se me permite, banal; que é exatamente onde aplico minhas atenções para o entendimento comum da obra.

Os demônios de um passado eterno

          A cara enfiada na poça, entre o asfalto e o meio fio, tem 178 anos de idade. O terno azul, esfarrapado com os bolsos vazios lhe d...

inscritos