terça-feira, 3 de outubro de 2017

Imortal, demasiado imortal.


      Sei da saudade que sinto do mundo lá fora. Preso aqui, dentro de mim, já não enxergo nem um palmo na escuridão profunda da verdade! Fui amaldiçoado a ver muito – para além do óbvio -, sentenciado a sentir para além daquilo que se suporta; a sentença é afundar, afundar... rodopiar em círculos internos de meio caminho andado com respostas que não se ligam e realidades descontínuas. O mundo se tornou insuportavelmente sujo! As pessoas, pequenas. Os egos, destruidores... e pior, toda certeza que um dia tive, mesmo sobre mim, aparece e se pulveriza como a lembrança dos sonhos. Some o sentido da vida com mesma facilidade que a morte vem pra todos.
   Tantas vozes dentro de mim. Pareciam bem entonadas, potentes, aveludadas. Silenciaram-se no contraste com horror do mundo... maior que eu, bem maior que eu! Tanto que fui me ouvindo e comparando aqui e lá fora. Como doeu não ver. Queria ser amado como me amei um dia, mas a verdade de ser grande é: não importa que te amem, que te odeiem, que te nada; só vou agindo, fazendo, crescendo... sendo o que sempre fui e não importa o mundo emudecido pelo caos, que sou anterior à verdade dos tempos, que as certezas internas nascem antes das verdades externas, que a realidade superior só nasce da inquietação da loucura interior, que a alegria cresce desmatando a selva densa da vergonha, que a razão não pressupõe entorpecer a dor causada pela verdade.
   Morte e vida dentro de mim.  
   Que foram vidas e vidas de conhecimento renegado, de verdades incontestes, de certezas perfuradas. Serão vidas e vidas revividas pra sonhar coisas que nem sonho existam, e conhecimentos infinitos para sonhar as coisas que nem sonho ter dúvida.
  Que ainda não perdi todos que amo; é que não sei o que amo, nem quem amo, nem o que é amar... que se acaba rápido quando cri ser eternas – numa rápida paixão juvenil – as coisas deste mundo.


      Acordei suando frio mesmo com a chuva caindo lá fora e vento abanado as árvores desesperadamente. Respirei fundo e percebi que tremia com medo dos sonhos. Olhei a parede branca marcada pela luz que atravessou a janela; nada lá. No alto do guarda-roupas apenas as duas caixas de madeira guardando os livros do ensino médio e os brinquedos da infância que já passou. Não era só frio. Me mijei todo, respingando no colchão e na fronha feita de retalhos. Certeza que não era goteira ou coisa parecida.
   Levantei meio tonto, calcei o chinelo azul remendado. Acendi a luz ao lado do guarda roupas. Mesmo diante do cheiro de terra molhada, veio o fedor podre de gás até o quarto e senti que algo de errado acontecia. Apertei o passo até a cozinha atravessando o longo corredor e descendo as escadas até lá. Escorreguei e caí, sorte que segurei no armário de panelas.
   Tudo ficou claro como o sol do meio dia, e quente, muito quente. Apaguei em sono profundo.

    O barulho da explosão me deixou surdo por um instante e com um zumbido demoníaco nos dois ouvidos. Acordei com meus irmãos me puxando dos escombros, ao que parecia o telhado desmoronara com o botijão assassino que voou pelos ares e eu, o único que sentiu o cheiro e fora até lá, fui a única vítima direta. Sentia a dor da carne queimada e o cheiro estranho que saia de mim mesmo. Respirava alto, o peito saltava em pânico. Uma pilastra prendeu o braço esquerdo e um ferro esmagou parcialmente meu pescoço, me deixando com um sufocamento que aumentava na medida do pânico pré morte. A angustia de ter o braço preso sem conseguir me mexer e o ar sugado pela pressão insuportável que lhe impede o movimento. Apenas via os pingos caindo dos céus e me afogando lentamente na minha cruz de cimento. Comecei a sentir a vida partindo do corpo e que o túmulo já estava enterrado, era só esperar a pressão arrancar todo o oxigênio e que o pânico nauseante sugasse minhas forças. Era meu último dia, o apocalipse pessoal que todos passam, mas injustamente momentâneo, inesperado, forçosamente triste.
   O ar passa fracamente pela garganta, pressionando aquilo que me tira a vida. Tentava empurrar o peso, tirar o braço, arrancar, se possível, mas não tinha movimentos. Só restava chorar. E sentia a dor, e o cheiro de carne queimada e a chuva incansável, e o vento... sem misericórdia. Sufocava-me.
   De longe ouvi a voz do Elias, correndo por entre as telhas, se me lembro bem ele xingou, como sempre;
- ô merda!, merda, merda... – e repetia num ciclo sem fim, possesso pela raiva mais do que pelo desejo de me salvar. Pelo barulho dos passos senti ele vindo. Arredou umas telhas, empurrou uns tocos, veio chutando uma dúzia de coisas e parou do meu lado. – Ah. Achei ele! – Falou com uma calma cômica, pra não dizer indiferente quanto a minha situação. – Parece que prendeu o braço no concreto e tostou as pernas um pouquinho. – Disse enquanto tirava o ferro do meu pescoço. Respirei fundo sentindo vida nova chegar. Olhou pra mim e fiquei sem reação, não sabia se agradecia ou pedia mais ajuda. A dor era horripilante, a dor das queimaduras, e do braço esmagado. Como doía, era de nausear a alma.  – Mas tu é um frouxo mesmo, hein?! É um ferrinho de nada e ta ai se debatendo... respira fundo e fica calmo que vamos te tirar daí.
      Recolhi na dúvida e no desespero: será que não me conhecia mais? Como poderia ter gritado tanto e me envolvido em tamanho desespero numa coisa que agora parecia desproporcional e histérica? Se um dia me conheci, não poderia deixar de conhecer, então não me conheço nem nunca conhecerei. É apenas um breve momento de claridade e saber algo de si é aceitar o engando do momento. Sufocaria até a morte com uma pena pressionando a garganta e morreria afogado numa gota de água mal engolida, tudo por manifestar no mundo alguma coisa entre aquilo que sou e o que acho que de mim. Gritava para ser ouvido por algo dentro de mim, afundado em medo, no desespero nauseante de se perguntar e não encontrar respostas; é a dúvida sobre o futuro e a angústia de uma certeza que não chega! Sufocar, sufocar, perder-me nas dúvidas que nem entendo se são reais... será que não entendi tudo? Preciso entender alguma coisa pra existir?
- Ser fraco é lucro, não para você, mas pro resto do mundo! – E me ergueu dos escombros. Percebi que não ficaria de pé e que precisaria de ajuda médica. As pena foram esmagadas pelos escombros e o braço esquerdo queimado e triturado. – Mas no seu caso você pode chorar um pouquinho, eu deixo! – Abriu um sorriso sarcástico. Marconi logo apareceu.
- Ele precisa de um médico com urgência!
- É. Deu pra perceber... – concordou Elias. – Estamos no meio do mato, longe de tudo. O jeito e arrastar até a cidade e torcer pra alguém nos ajudar.
- O que você está fazendo? – perguntou Marconi. Eu só sentia a dor, lancinante sensação das queimaduras arrastadas aos quatro cantos do corpo.
- Vou deixar um bilhete pra dona da casa. Não podemos sair assim sem deixar explicações. Olha o tamanho da bagunça que o Miguel arrumou aqui! – Apontou ao redor. Pegou uma tábua branca e escreveu um recado usando um carvãozinho, coisa que nem demos o trabalho de ler ou perguntar o que era. – E pare de gemer. Aguanta a dor calado! – Terminou, ríspido.
- Fala isso porque você não se queimou, Elias. Deixa ele sofrer quieto!
- Shi... filho... – ele sempre usa esse termo, muito pejorativo. Somos primos, mas sempre me trata como o filho retardado. – Não grite muito. Sei que dói, mas não demonstre fraqueza. É seu momento de glória, hora mais singela de demonstrar que suas filosofias valem alguma coisa. Geme pela dor, mas todos aqui já sabemos que dói... - Você foi abençoado, parece que só queimou as pernas e moeu o braço esquerdo... rapidinho vai ficar bem! – Disse o Marconi, num tom bem paternal, como sempre. Igual quando me ralava todo e ele vinha me levantando, sacudindo a poeira. Quase da mesma idade, mas ele sempre pareceu ter um milhão de anos. – Só vamos ter de te carregar até o hospital. Olha ai, você tostou só uns pelinhos e quebrou as pernas. Agradeça por ter alguma pra quebrar!
- É. Agora você faça o favor de aguentar as dores. Ninguém merece carregar alguém que além de tudo reclama!
    Não eram só queimadura. Metade da perna esquerda se carbonizara, a outra ficara completamente quebrada, mas algo espantava a dor, de longe doía bem menos do que era de se esperar. Quatro dias atrás parecia uma boa ideia passar o feriado no ermo, afastados da civilização; coisa de moleque aventureiro. A casa era grande, com lagoa, algumas vaquinhas espalhadas pelo quintal – pior, o cuidador do lugar também saíra no feriado, exatamente naquele dia, tudo ação das trevas. A casa ficava na parte baixa do terreno, feita com barro e cimento e cercada de bicas e carrapatos, como odeio carrapatos. A chuva lavou as labaredas do fogo e impediu as coisas de se queimarem mais. Depois de ser arrancado dos escombros, fomos até a beira da lagoa que ficava no alto do sítio. Algumas vacas dormindo, morcegos voando em círculos, duas árvores grandes foram derrubadas pela ação dos ventos; uma visão quase apocalíptica das coisas.
    Fora carregado morro acima. A dor lancinante causava enjoos e uma agonia incessante por nunca parar nem nunca diminuir. Das queimaduras saia o cheiro de churrasco tostado e, pra desgosto meu, alguns carrapatos subiram em todos nós... poderia me queimar inteiro, mas que me livrassem dos malditos carrapatos!
- Os cavalos ficam aqui durante a noite. – Apontou Elias. – Agora, só tem um cavalo e... pelo jeito vão dois nele e um puxando. Ele já ta velho e não aguenta nem um direito...
   Numa das beiradas da lagoa, um barranco alto, lamacento. Nos entornos, capim que se mexia com a chuva e o vento. Árvores altas cercando as coisas por todos os lados e umas vaquinhas espalhadas dormindo cada uma num canto.
- Vou enfiar um processo na dona dessa pocilga. Até o Gás daqui é uma merda, o lugar é no meio do nada e a cachoeira é uma porcaria. – Entramos numa casinha ao lado da lagoa. Elias reclamava de tudo enquanto me carregava nas costas; antes de sairmos arrancou o lençol da cama e enrolou em si: não se sujar com o sangue que gotejava dos meus machucados. Marconi vinha logo ao fundo. – Tem certeza que aqui que fica as celas?
- Tenho. Ela... – Acabei gritando com a dor. O braço esquerdo passado pelo pescoço dele se retorceu de um jeito estranho fazendo surgir uma queimação súbita.
- Me põe no chão... assim dói mais... me põe logo... aiaiaiai – a lágrimas escorreram involuntariamente, vieram da alma, a suplica para que algo terminasse com aquela dor. – Faz parar, pelo amor de Deus, faz parar... eu... aaaaaai... não... vou aguentar isso a...qui.
   Revirei de pânico no chão. Encolhia os dedos do pé e contorcia as pernas com a dor lancinante reaparecida subitamente. O braço esquerdo, queimado e esmagado, pulava involuntariamente como numa convulsão inoportuna; respirava ofegante tremendo o queixo e as alucinações começaram a surgir. Ouvia ao longe Marconi gritando “respira! Calma! Vai passar! ”, ele sumia numa névoa densa que cada vez mais tomava conta de mim...fui afundando, afundando...os sons foram desaparecendo e já não sentia frio, mas um calor agradável; morno e agradável.
   Fui afundando...
   Afundando...
   Longe de mim...sonolento...preso na névoa.
   Alguns tapas e retomei parte da consciência. Ouvi, entre o escuro e o caos, lá no fundo do abismo, mais vozes;
- Morreu? Será que morreu? – Era Marconi falando com Elias. Quando regressei, a dor veio junto; leve, mas ainda estava lá. Respirei e soltei uns grunhidos agoniantes, involuntários. – Ele tá bem. Só deu um desmaio. Graças a Deus está bem! – Concluiu, continuando com a velha história. – Eu sei que dói, mas aproveita a dor e agradece por ela! Faz como faria e como sempre disse; seja grato por aquilo que tem e por aquilo que não tem (mais silêncio e um zumbido devastador)... Agradece por não ter machucado nada além disso. Podia ter rompido o baço, perfurado o pescoço... você queimou a perna e quebrou o braço (foi um pouco mais que isso, convenhamos). Vai ficar tudo bem, então aproveita pra ver coisas que não veria quando saudável, coisa que nenhum livro te ensina.

- É. Aprende a não reclamar das coisas bobas, reclamar só infla o tamanho do problema, você sabe disso! Não sou muito bom em consolar os outros, isso é coisa sua e do Marconi, mas os ares estão filosóficos agora – riu alto com aquilo, coisa incomum pra quem importa só consigo mesmo. -  Você falou a vida toda de sofrimento, de perda, de consolar os outros... agora se console...prove pra si mesmo que suas filosofias funcionam. Se não valem nem pra quem as escreve, não valem pra mais ninguém!
     Sentaram-me na palha, dava pra ver as coisas lá fora; o mundo parecia estranho, como se fosse acabar a qualquer momento e eu pressentia que eu era o primeiro a partir. A chuva caia desregulada criando círculos secos no lago e, por entre eles, via vultos percorrendo os entornos da casinha; homens na forma de sombra – totalmente escurecidos – que caminhavam entre nós; só eu via, como se minha hora estivesse próxima, o que trazia mais pânico, mas ao mesmo tempo alívio em acreditar ( e saber ) que a morte é um produto de mercado altamente lucrativo e que o ceticismo diante da vida espiritual é puro fruto da ganância e corrupção do coração dos homens. Quando as sombras se aproximavam, vinha a luz, a descomunal luz que os fazia desfalecer em ódio e fugir de minha presença. Terminava aqui, mais uma vez, aqui, na vida de carne, reduzido à suja e desprezível vida num corpo físico; e pior, agonizando com uma dor incessante.
     Terminando o assunto Elias saiu da casinha cambaleando com o solo barroso que se formou pela chuva que não parava. Tomou de uma enxada e foi medindo a profundidade do lago até ver onde dava pra ir; foi se enfiando na água, e lá pro meio gritou para Marconi montar no cavalo e me trazer.  Às vezes ele é muito lógico e cético com as coisas, em outros tantos momentos é arrogante e prepotente, ali ele me lembrou um conto que li uma vez – sim, ainda tinha uns pensamentos bem articulados - se não me engano dizia algo assim:
  “Degolávamos, eu e meus amigos de farda, numa segunda feira de abril, uma mulher que transgredira a lei; ordens diretas do alto – separar cabeça do tronco, desmembrar por completo, e depois, jogar aos cães ou enfiar num saco e tacar ao rio. Fizemos o trabalho, o mais louco foi ela gritar afirmando que era minha mãe, fez isso três vezes; quando tomamos de assalto seus chuchus; depois, quando enfiada no camburão; no início do degolamento – quase acreditei, ela parecia mesmo com minha mãe. Bom, de qualquer forma, não deixei de seguir a regra: quem vende chuchu não carimbado deve morrer; é o que o presidente Otário mandou, claro que ele tem algumas falhas – e quem não tem? – achamos que ele ganha bem demais pelo cargo que exerce, também acreditamos que matar negros e homossexuais não vá resolver os problemas econômicos do nosso país – eu também acredito que os chuchus não são os responsáveis pela fome do nosso povo, nem quem os planta ou vende. Também acho ilógico roubar as coisas da população em nome do governo, mas sou militar; é meu dever matar sem olhar a quem e obedecer sem saber o porquê. Quando voltei pra casa, dei falta de mãe e vi que era ela a mulher degolada...nossa, será que nossa comida era feita de chuchu? Ainda bem que não percebi, vai que não cumpro a lei por nepotismo? ”
     Elias me lembra o sujeito do conto. Age como um militar qualquer; é capaz de degolar a própria mãe em nome da lei e daria graças por não descobrir a tempo para não correr o risco de transgredir as coisas. Era um militar completo – vítima e agente da opressão – daqueles que matam a população do país em nome do ditador, chegam em casa e reclamam da falta de comida, do aumento da criminalidade, da incoerência do regime, mas daria o cu pro quartel inteiro pra ter em mãos um fuzil, uma farda e meia dúzia de subordinados agindo a seu mando por algumas horas no dia. Elias tem medo de sangue, não o que jorra no outro, mas o que espirra em seu corpo, porisso só mataria vestido dos pés até a cabeça; um militar completo. Mas tinha bom coração ou senso de liderança, tanto faz...
- Vai vocês dois, depois alternamos! – Berrou por entre a chuva forte. Quando fui colocado no cavalo vi-o de pé no meio do lago segurando a enxada atolada até a metade, e ele, afundado até a atura do tórax. – Ele vai nadar o resto do caminho! Depois volte e me busque.
    O cavalo empacou logo nos primeiros passos; medo de continuar, fez um e outro salto, recuou; parecia pressentir algo. Depois, com muito custo, Elias o puxou pro meio e lá fomos.
- Agora ele se decidiu! Sigam por lá e depois voltem, não esqueçam!
   Não durou a paz...dez passos depois, enfiado na água por completo, entrou em pânico mais uma vez;
   Subiram as águas e a dificuldade aumentou. Fomos até o meio do lago, era o único caminho possível; ao fundo passava o rio, já raivoso, de águas profundas, demasiado sujo e misterioso demais pra receber um ferido e seus acompanhantes.  A chuva caia forte e dilacerara algumas árvores, e antes mesmo de atravessarmos o resto do caminho, resolvemos voltar. O lago cresceu como massa de bolo e engoliu as margens. Começamos a nos afogar. O cavalo se atolou e prendeu as patas numas relvas entranhadas que cresceram ocultas pela água barrenta. Nos arrastamos até as margens, um novo teste para nossas vidas. Mais uma vez senti a vida sendo sugada de alguma forma. Agora era o medo voltando. O cavalo se debatendo, lutando pela vida. Não era só relva, algo atacara o bicho, e ali mesmo, de afogado evoluiu para dilacerado. Na água se espalhou o cheiro do sangue e os retalhos de carne saltitando com os pingos furiosos que caiam. Ouvia-se as gotas caindo como pedra, levantando a água do lago e fazendo uma dança macabra fazendo aparecer no horizonte a luz fraca acesa por nós mesmos no celeiro. Brilhava lá longe a força da vida; nossa única salvação. O brilho fosco da lâmpada aparecia por entre a chuva forte. Nadamos até ela, Marconi me puxando e eu sendo obrigado a aguentar a dor sem gritos, de boca fechada, poupando fôlego e lutando para não engolir água. Pelo barranco escorreu lama e pedras. O cavalo parou de se debater, apenas balançava de um lado pro outro com as ondinhas do lago.
    Chegamos à margem. Atolados em lama, molhados em água suja de sangue. E, pelo cansaço, retomamos o fôlego parados no barro como velhas quase mortas. Faltou forças ali mesmo, mais alguns minutos e estaríamos dilacerados como o cavalo que boia ali na frente. Por alguns minutos não fizemos nada além de nos acalmar e entender a loucura ocorrida. Até mesmo a dor acabei esquecendo um pouco, só sentia os respingos da chuva fina caindo na minha barriga ( fora deitado de costas pro chão). Pela frágil iluminação Elias percebeu a cor vermelha impregnada em suas roupas. Entrou em Pânico; nunca suportou sangue depois do acidente na escada de casa quando enfiou a testa numa quina e espirrou sangue nas paredes brancas da casa, pelo chão de porcelanato esbranquiçado e na roupa. Só tolerava sangramentos nos outros, em si, nunca! Ficou estranho, a respiração saltava do peito fazendo movimentos acelerados. Se debatia, gritava, fazia espalho... eu e Marconi só observamos o teatro, a fraqueza demonstrada de forma tão gritante bem ali. Alguém que demonstrou força e integridade nos momentos de perigo e que agora desaba por tão pouco, preso numa paixão interna e numa mentira que preferiu perpetuar no seu íntimo a deixa-la partir para o tempo distante. Remoeu os tempos já vividos não como fatos consumados, mas como realidades eternas. O tamanho da realidade só existe na cabeça do sujeito! Seria capaz de romper pelado um incêndio florestal, mas ainda sim seria impossível para ele suportar uma gota de sangue pregada na própria pele... assim como todos, viveria diante das enfermidades do mundo, atolado nas dificuldades mais extremas e, mesmo assim, negaria tudo com a mais profunda paz e remoeria os medos do passado, as coisas que desenterra sozinho; o coveiro de desgraças; o olho de túmulo; aquele que faz apodrecer a carne jovem e afasta da luz tudo o que olha.
   Seu desespero me confortou de certa forma, sinal que não sentiria dor sozinho, que não era o único fraco do grupo e que Elias também se debatia. Se cobriu de lama para tapar o sangue. Vomitou tudo o que tinha comido; um, dois, quatro jatos longos até que a chuva ao fundo fora diminuindo e se tornou uma garoa fina, como antes, e o garoto, que antes me forçara a reduzir a dor, agora se debatia por um sangue que nem era dele.
*
*
   Terminamos os três dentro da casinha de palha, cada um num canto do monte central. Me colocaram sentado de forma a ver a chuva lá fora caindo fraca, e as vaquinhas já calmas. Os três em silêncio, a luz escassa iluminando as portas largas feitas em madeira grossa; as palhas espalhadas pelo chão e numa plataforma que se ergue a uns quatro metros. No fundo me senti acolhido...e distante de tudo. As dores diminuíram ao ponto de quase não sentir; agora um braço rasgado e triturado e algumas queimaduras extensas nas pernas (também quebradas), e meus primos, que nada tinham sofrido, se fizeram sofrer sozinhos. Elias desesperado com o sangue; Marconi, incapaz de soltar uma palavra que fosse, mas no final estávamos acolhidos, e acabei pensando: a cidade está anos luz daqui...me acostumei com a ideia da morte, o que dói mesmo é a dúvida, a angústia se algo vai ou não acontecer. A expectativa antes da tempestade, e mesmo os dois fazendo o possível pra me acalmar, o corpo pedia socorro, pedia por ajuda! É a tensão antes da guerra, o caos psicológico projetado numa mente presa no materialismo imediatista; e, para a loucura que ainda raciocinava em mim, o futuro resguardava dor e mais dor regada de incerteza, como tudo na vida. Deitado na palha as coisas foram se respondendo, e as perguntas apareceram como a tempestade que partira e o medo fora se tornando irracional, veio o texto, Imortal, demasiado imoral; intangível: a força viva é anterior ao corpo físico e superior a qualquer existência material; antes de tudo, eu sou! Sou o um que teve início, mas não tem fim; o imortal, demasiado imortal. É a única certeza que um dia carreguei e a única coisa já provada a mim durante a existência poraqui. 

       
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sábado, 30 de setembro de 2017

Não. A arte não é qualquer coisa e opinião pessoal não vale pra definir arte. ( e esta não é uma opinião pessoal)

É quase uma obrigação do sujeito justo e decente discutir o assunto: afinal, o que é arte? Melhor ainda, o que é a beleza? Se por acaso ouvíssemos que arte é qualquer coisa e que qualquer coisa pode ser bela, apenas o fato de anunciar tal barbárie silogística já destruiria qualquer possibilidade de se definir arte e beleza. Olha o exemplo, qualquer coisa pode ser um triangulo! Afirma o mongoloide que defende a universalidade da arte e que, não reconhecendo os próprios traços de demência, principia usar seu discurso em qualquer palhaçada por aí. As figuras geométricas carregam formulas próprias irremediáveis, intransgredíveis, ou seja, não existe ideologia de gêneros versão trigonometria.
   Definir algo é reduzir suas possibilidades de existência, trazer leis de funcionamento para suas formas, delimitar, racionalmente, até onde é. Do contrário, confundiríamos formas, generalizaríamos leis para objetos incompatíveis com elas e, como já apontei no texto sobre o positivismo, quando algo passasse a não responder tais possibilidades de funcionamento pelo simples fato de serem incompatíveis com suas formas, já apontaríamos com o dedo do meio: NÃO EXISTE! É FALSO! É FALSIFICAÇÃO! LOUCURA...FASCISTA, TAXISTA, ELETROCARDIOLOGISTA...
   Ou seja, cria-se uma definição para coisas que respondem a uma mesma lei ou q’ue carregam alguma semelhança interna ou externa: estética, morfológica, estrutural, funcional...o caralho que seja, mas que tenham algo em comum e que se subordinam ao conceito maior: a beleza, a arte!
   Agora um exercício básico para o senhor (ou como diria a esquerdopatia senhorx): encontre um traço comum entre o rabo suado de um homem sendo exibido num museu; meia dúzia de atores andando pelados em círculos com o dedo nos cus um do outro; um funk carioca sobre bundas, peitos, pirocas e cus (tema recorrente em nossa música popular) e a escultura Pietà de Michelangelo, o senhor perceberá que existe um abismo imenso diante disso e que tais coisas não se misturam nem de longe e que de forma alguma poderiam compor o que chamamos de arte.
   Creio que a crítica de René Welleck ao conceito de fontes e influência vai nos valer aqui: o conceito de arte – ou literatura – só poderia existir diante duma visão global e transcendente que é comum a toda as culturas, onde o que é belo e bom é um assunto comum a todos, ou seja, nem pra todo mundo a peça macaquinhos é boa ou bela, mas seria razoável dizer que uma escultura feita em mármore maciço, esculpida com traços humanos perfeitos, pode ser considerada no mínimo boa (no mínimo).
   Outra coisa: uma opinião pessoal nunca, jamais, em tempo algum, nem em Nárnia, nem nas profundezas de Calunir, pode ser considerada uma definição universal que se acoplaria ao dicionário comum das imbecilidades arrotadas pela gentalha brasileira. Definir é reduzir, classificar e, antes de mais nada, legitimar! Se tudo é arte, tudo responde às leis da arte.
   Mas veja bem a infinidade de erros que existe na teoria absurda dessa gente;
1)    É arte pra quem? Quem define arte? Definições surgem de pessoas e, como bem sabemos, raras são aquelas que definem algo fora de suas opiniões pessoais e julgamentos de valor;
2)    Não. A arte não pode ser tudo pois definir tudo como arte implica necessariamente afirmar que tudo responde às leis da arte e que toda a realidade existente perdeu a essência primordial;
3)    Se eu defino algo, logo me separo daquilo que defino; aquilo é uma arvore; logo, isto sou eu. Ou seja, separei eu do objeto definido, assim ( mais uma vez), se defino o que é arte não posso ser ela – premissa básica, eu não posso provar minha existência; só quem existe fora de mim poderia - até a afirmação “eu sou eu” entra em colapso - , e ai temos contradições idiotas;
a)     Eu não posso provar minha existência;
b)    Tudo é arte;
c)     Se tudo é arte, logo o conceito de arte não existe pois ela não pode provar a própria existência;
4)    Iniciamos o novo ciclo;
a)     A arte é alguma coisa separada de nós;
b)    Logo, responde a leis próprias;
c)     Os juízos de valor são de origem individual, então não servem como parâmetro para julgamento vez que procuramos uma coisa universal;
d)    Definir arte mediante um ou outro ponto de vista – seguindo o raciocínio René Wellek sobre fontes e influências ( vide a crise na literatura comparada), seria criar um monopólio de ideias e uma superioridade de um conceito mediante o outro;
e)     Chegamos no colapso de teoria de que tudo é arte;
I)                     Não pode surgir de uma opinião pessoal, isso geraria um monopólio de ideias e, progressivamente, a exclusão e repressão da cultura humana;

II)                Uma definição só é válida quando aborda um universal humano ( ou do grupo em questão), sem delimitar características de grupos isolados e defini-los como únicos portadores de tais conceitos (quando citei Pietà procurei um universal humano, não a definição baseada em um ou outro grupo) 

  Visceralmente existem premissas inseridas nas premissas. As afirmações não cessam nelas próprias, e, quando abstraídas, desmontadas e inseridas num sistema, revelam a inconsistência de seu corpo formante; tudo é arte, como posso definir algo dizendo que ele é tudo? A mesma coisa na definição de provar Deus; como poderia provar a existência de Deus de forma empírica, por amostragem? Apenas mostraria uma parte do todo, uma face, e provar compõe (em nossa visão), demonstrar a estrutura por inteiro – o que revogaria a essência básica do poder divino de estar em todo lugar o tempo todo.
     Universais abstratos não podem ser provados ou experimentado, apenas aproximados por indícios, o que impede qualquer definição baseada em outras premissas para além de silogismo ou deduções (ou) induções lógica.
    O conceito de arte não pode estar no objeto em si, nem nas coisas, mas é um imperativo categórico; um balaio onde colocaríamos suas categorias e subcategorias. E que fique claro, neste ponto crio meus próprios julgamentos – partindo de premissas lógicas, o que força-me a afirmar que é algo para além da opinião pessoa.

     Nem tudo é arte, mas temos substâncias menores que caminham para ser. Ela (a arte), para assim ser chamada, deve ser bela (neste conceito que aqui proponho, só sendo possível de se conceber quando a beleza considerada como universal), assim, a arte seria um corpo complexo, o que confere um grau de evolução a um objeto visualmente desagradável ou acusticamente inoportuno; pode-se nascer como objeto de função sólida e evoluir até se materializar com função estética e, no fim, tornar-se arte.
  Para tanto, na teoria a arte não pode ter função social à priori, ou seja, sua função primária não pode ser educar, ensinar ou moralizar, visto que tais funções já existem antes da concepção do objeto artístico e ele, por sua vez, absolveria suas leis, anulando sua singularidade universal e criando uma subordinação ( e voltaríamos à teoria primária de que o conceito de arte deve ser universal e ter leis próprias, mas se ele é feito, primariamente, não de arte, mas de moral ou ética, é inteiramente dependente desses conceitos e de suas subjetividades, assim, só poderia estar subordinado a outros conceitos universais que independem um do outro para existir mas podem se fundir para algo maior – sem se subordinarem.)
 Teríamos:

a)     A arte é um corpo complexo;
b)     Arte e beleza caminham juntas;
c)      Um objeto pode nascer com função prática (ou sólida), evoluir para função estética, e se tornar belo ou arte;
d)     Ele não pode ter, à priori, função prática, mas a prática pode se valer dele – ou seja, é o elemento prático que se subordinaria à arte, nunca o contrário, o que anularia as premissas de função primária; 



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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Manifesto pós materialista

      Não se trata de apenas uma crença pessoal ou uma vertente de determinados dogmas religiosos, aliás posso dizer que nem disso se trata. Ou, pelo menos, não é crendice maior do que a ciência positiva que, não diferente de um adolescente arrogante, diz que só vale o que ele dizer que vale e, como não consegue ver tudo, nega todo o resto. Ai faz um clubismo, nega evidências, restringe as coisas numa gaiola materialista e trata todo o resto como “crença pessoal”, não menos nobre que os behavioristas, kantistas, jungianos, pavlovianos; divide as coisas entre aquilo que conseguem explicar – e dizem ser real – e o resto impossível de ser detectado por seus métodos e negado até a última consequência, não diferente das perseguições islâmicas que buscam a imposição de um Califado sagrado regido não pelas leis da Sharia, mas pelo materialismo positivista.  
   As crendices do método se estendem até ao rebaixamento da língua falada, com tonalidade própria, extensão espacial e profundidade acústica à escrita academicista dicionarizada e que responde a meia dúzia de regras gramaticais – gerativistas, normativas ou o caralho que seja – degenerando a riqueza da ação humana em nome de filosofias da linguagem que, como bem sabemos, são incapazes de criar uma língua universal perfeita sem a presença de ambiguidades ou figuras de pensamento comuns a todo raciocínio humano. Não bastasse isso, esquecem a velha regra: o bom escritor tem sua própria língua; os medíocres, a gramática.
     Não por obra do acaso, bem sabe-se que as regras gramaticais têm origem na longa tradição dos séculos e na observação metódica das colocações linguísticas. Vide a gramática dos alexandrinos, gramática normativa, descritiva e gerativista, também veja o estruturalismo de Saussure (as diferenciações entre Língua e fala, sincrônico e diacrônico.) Por exemplo, as sentenças não podem seguir uma ordem aleatória desarticulada e separando os constituintes* e que, à Priore, quando se bate o olho percebe-se uma ordem linear; sujeito e predicado ou sujeito + verbo (direto, indireto, intransitivo ou os dois) + objeto (direto ou indireto) e seus complementos ou adjuntos.
   E a série de raciocínios vai além – como nunca poderia ter parado – e propõe uma infinidade de outros argumentos e terminologias para explicar o funcionamento da língua – léxico interno e externo, sintagmas: nominais, preposicionais, verbais..., afasias, figuras de linguagem ( vide, a metáfora e a metonímia de Jacobson relida por Lacan e a própria teoria em si e seu valor nas explicações sobre inconsciente, inconsciente coletivo e na tosca e ultrapassada teoria da luta de classes. Vide Mikhail Bakhtin e a teoria dos gêneros do discurso, transgressão de gêneros. Vide a ideia de signos linguísticos para Saussure; leia “A república”, de Platão.   
    Ignorando a infinita variedade humana, em causa e espírito, deflagrou-se a tese, incorreta e incoerente, de que é possível ler, com exatidão matemática, os feitos antropológicos e verificar que a ordem dos acontecimentos históricos, bem como seus agentes, respondem a mecanismos racionais bem determinados. Como já bem dito, se não sabemos diferencias se algo é causa ou consequência, se é a manifestação exata da estrutura ou o reflexo materializado de uma ordem maior ( e dificilmente saberemos isso para tudo), nunca poderemos prever, com exatidão, se estamos no começo ou fim de tal evento histórico ( quando inseridos nele), nem como há de terminar. O caminho é pior para os planejadores centrais: diante disso, torna-se impossível calcular as necessidades humanas com meia dúzia de ações estatais criadas após o extermínio da propriedade privada. Assim, se criar uma linguagem universal e perfeita é um fato descartado por si só, se bem temos a verdade de que a língua só existe pela ação humana – e por ela – e um idioma só é considerado vivo quando falado e entendido ( mesma premissa de u texto), criar-se uma sociedade perfeita e organizada sem livre mercado torna-se impossível. O exemplo mais profundo disso é que, mesmo inserido na revolução francesa, Alexis de Tocqueville nos lembra (p.115), “segundo tais leis excepcionais, o homicídio é tolerado, a devastação, permitida, mas o roubo, severamente proibido...”.
     O povo suportaria a extinção da propriedade privada em nome de uma ideologia, mas só até a fome apertar e o espírito de sobrevivência sobrepor ao das ideologias e das paixões momentâneas. Mesmo numa revolução sangrenta – e de forma desordenada, como todas são – o limite acaba sendo os objetos da ação do homem; há coisas que nunca serão coletivizadas, que, mesmo tomadas a tiro, logo retornam à sociedade de uma forma ou de outra, pois os ditadores e revolucionários não são eternos – falo disso em “o julgamento da moral” – e o motor real da história está nas ideias que sobrevivem à morte das gerações e às revelações elucidativas de pensadores esporádicos nascidos de tempos em tempos. A revolução está nas ideias! Nascidas, desmontadas e reaproveitadas, mas sempre se rebaixando à dura realidade do mundo. A ideologia sempre será subordinada à totalidade do real.
     Não bastando a ideia de quererem um mundo perfeito, ainda insistem numa língua inabalável e estática, insistem em rebaixar a totalidade dos fenômenos físicos e momentâneos àquilo que podem ou não captar com seus métodos instrumentais – falhos, nunca finalizados, como todos persistem afirmando desde toda a história conhecida – e não poderia ser de outra forma; querem uma língua perfeita e estável para descrever uma realidade viva e mutante; insistem em catalogar a amplitude dos fenômenos reais numa faixa estrita de frequência dividida cartesianamente: científico e crendice.
    Aliás, ainda não sabemos se a totalidade das coisas é origem ou causa do fenômeno, nem se os objetos catalogados existem por si ou agem subordinados a leis invisíveis. Por que as formas se organizam de tal maneira e não de outra? A qual força organizacional respondem? Como nasceram as proposições viscerais envoltas em toda e qualquer dedução lógica? O que garante que a deformação vista na matéria é natural de sua estrutura e não fora provocada por forças externas invisíveis? Para o extravio que vê de longe um sujeito sendo esmagado pela pressão das águas sem saber que elas existem, nem de tal possibilidade, entende como ação do próprio corpo os eventos que o colapsam em si mesmo. E, por isso mesmo, carrego a ideia de que necessidade, forma, desejo e organização fazem uma dicotomia essencial aos processos da vida.
    Não é bem uma questão de crença pessoal, nem de aceitação das provas, mas de resistir e negar a realidade das coisas até à loucura total. Negou-se o efeito placebo até que as evidências tornaram insustentáveis qualquer ojeriza vinda dos gabinetes caligarianos materialistas, e percebe-se a inviolável característica dos céticos que foge totalmente até ao próprio discurso: descartar provas daquilo que sua ciência e filosofia é incapaz de sustentar. Ou, como creio, é mais um mecanismo de autodefesa dos raciocínios ultrapassados que (ou uma batalha antitransgressionista) de encontro com ideias tortas de tornar intocável, no lugar de conservar, estabelecem um corpo de ideias dogmáticas incansavelmente defendidas pelos pensadores no decorrer dos séculos. Fez-se um templo de ideias onde são cultuados deuses criados pelo homem à sua imagem e semelhança e as ideias, fracas, certas ou erradas, sofrem efeito da personalidade reinante que as apoia mais do que a força de seus argumentos. Ignora-se fatos novos, reduz-se ao ridículo novas ideias sem ao menos lhes dar voz: as ideologias reinantes, por lógica, não devem ser respeitadas, mas respeitar as novas manifestações e deixar que a defesa do ônus da prova, no mínimo, lhes seja dado com justeza. Mas não! Não aceitam contestações, tampouco ajustes, e fomentam um acúmulo de pequenos erros que lhes assegura o desmanche abissal num curto prazo de tempo.
    Outra alucinação interpretativa, para além da negação de novos fatos, está no apoio irrestrito aos “papas da razão” e à perpetuação de erros históricos – não revistos nem questionados – pelo simples e único fato da teoria existir por muito tempo nas ideias comuns. O erro se prolonga carregando um próprio sistema de defesa que varia entre o deboche e o desprezo, mas a realidade dos fatos é inegável e seus efeitos no mundo são constantes, mapeáveis até a origem da falha.
    A doutrina positiva, assim como qualquer outra, leva-nos a uma moralidade própria (mesmo que em suas entrelinhas não se proponha isso). Qualquer método estéril que simplesmente negue a possibilidade de existir algo para além dele – ou que reduza a realidade humana a leis naturais ou matemáticas - recusa-se a melhorar e, por isso mesmo, fecha-se na falha. Aqui vão algumas das premissas do positivismo aplicado ao mundo social;

2. A sociedade pode ser estudada pelos mesmos métodos e processos empregados pelas ciências da natureza. 
      Supor que a sociedade é regida por leis naturais irremediáveis é a negação absoluta da existência de forças que fogem aos padrões lógicos de uma estrutura maior e a fundamentação básica necessária para que exista uma luta de classes. Ou seja, independe de que você ou eu acreditarmos na existência da luta, pois só assim seríamos divididos em grupo “A” ou “B”, mesmo apresentando características de “C” ou “D”. Mises refuta a possibilidade do cálculo social e do positivismo social com a praxologia. Atitudes humanas não seguem padrões lógicos, nem respondem a uma lei específica; pessoas são ilógicas, irracionais, prepotentes, vingativas, em suma, agem pelo completo oposto daquilo que poderia ser calculado.
    A própria ideia do inconsciente freudiano afasta o argumento de que a sociedade responde a uma lei universal e lógica, afastando teórico do positivismo social – e deitando a marretadas toda a ideia de cálculo central da economia, da sociedade, da vida comum!
3. As ciências da sociedade, assim como as da natureza, devem se limitar à observação e à explicação causal dos fenômenos, de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando previamente todas as pré-noções e preconceitos.

    MAS, QUAL O PROPÓSITO DE NEGAR O SOBRENATURAL?
   Poríamos em prova todo o materialismo promissor e o cientificismo que reduz a totalidade dos fenômenos a somente aquilo que é explicável ( como já dito), e até a própria indústria científica seria colocada em teste vez que, dos inúmeros eventos que contestam a inviolabilidade do método científico e da opinião puramente materialista, não estaríamos reduzidos apenas aos fenômenos visíveis, mas aos invisíveis também. Também diríamos que os fatos carregam um milagre eterno que transcende a memória, as ideias e os retratos do tempo; é o fardo que nunca deixam de existir. Ocorrem e, depois de nascidos, são! Vergonhosos, alegres, opacos e degenerados pelos mecanismos de regressão; estão sempre lá, assentados como tijolos, estáticos num lugar eterno juntos da mente divina! Vide o argumento da prova primária, por Platão ou a fé raciocinada e o tomismo de São Tomás.

Continuaremos em breve...
 



Nota de rodapé;
   Siga o raciocínio e leia a frase “Ana matou a família com uma picareta”, podemos separar as estruturas e percebe-se que mesmo numa frase temos várias outras estruturas menores para além de sujeito e predicado. 1) Ana matou, a família com uma picareta 2) A família, Ana matou com uma picareta 3) Com uma picareta, Ana matou a família. Assim temos uma série de elementos menores articulados para formar uma sentença – A família; Ana matou com uma picareta; Com uma picareta; Ana matou – onde não podemos separar “a” de “Ana”, nem “com” de “uma picareta.







     
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Análise da banalidade de um povo, parte 2

 
   DEpois de uma breve análise, precebi que não bastaria um texto para datar a imbecilidade brasileira, nem dois ou três, no mínimo um livro ou uma série deles, como o professor Olavo fez. Diferente dos liberais, creio: o que torna a humanidade um desastre não é a ausência de livre mercado ou as doses massivas de estatismo saltitantes de tempos em tempos, nem tampouco as ditaduras. Vide, não se pode conhecer um efeito sem a causa, nem a fome em massa sem conhecer seu causador. Mesmo que exista um grupinho de famílias donas do mundo, a grande maioria que resta é responsável por comandar as engrenagens das coisas; é o dono da padaria, o cuidador de idosos ali, o padre, o pastor, o médico, o professor, o jornalista; todos enrabados uns nos outros e, de alguma forma, respondendo pela culpa.
    Ou seja, são os burocratas do cotidiano que carregam a maior responsabilidade por vivermos numa estrutura suja e desprezável. Acompanhando bem, é o trocador que rouba o restante do troco de um sujeito meio sego; é o professor mal comido que ensina ideias que não sabe a origem nem a influência que carregam no mundo; o cidadão que, incapaz de cuidar do filho, transfere ao Facebook e aos vizinhos – mais burros ou amorais - o dever de educar. É o protestante que, não sabendo bem a história das coisas, repudia o católico como se fosse filho do capiroto, negando o fato: agradeça aos bispos por terem juntado a bíblia (biblioteca) cristã em um único volume e de terem defendido a fé na santa cruz contra os Sarracenos que hoje são recebidos de braços abertos numa Europa destruída pelo terrorismo que tanto atribuíram ao povo maltratado da América Latina. 
    Juntando o útil com o agradável, é sábio defender o ateísmo em uma sociedade coletivista, trazendo a visão humana e a interpretação rituralista dos fatos divinos como a única e real descrição dos fatos. Lembre-se que a quase totalidade da ação humana se baseia na cultura transmitida no lar e fora dele, nos rituais religiosos, nos adereços do coritiano, diferente do que o senhor Dawkins afirma e crê, Deus não é fruto da programação genética - vide "Deus, um delírio" - tampouco se explicaria as atitudes pela transcriptase de alguns gens. O projeto genoma humano pretedeu dar um basta nas ideias "místicas" sobre o universo, e diante da impossibilidade de explicar as coisas por meio do DNA, usou do batido materialismo promissor: "fica pra próxima, pessoal, mas até lá vamos zombar de qualquer explicação e qualquer prova que os senhores apresentarem sobre o que quer que seja que não use os métodos duvidosos do Positivismo lógico - vide "Hans Kelsen e o positivismo", "A tragédia positivista de,Lezek Kolakowski". 
  Esqueça isso e vamos voltar ao foco: a burrice dessa gente fulann aprovado Medicina”, “segundo lugar em Med”, “Terceiro lugar em engenharia”, fale que é professor e todos já olham torto, com um certo desprezo digno da inferioridade intelectual do povo brasileiro,  não por odiarem a profissão em si, mas por serem incapazes de entender o papel da ação intelectual no mundo, por nunca terem raciocinado sobre o complexo processo de produção e manutenção dos mecanismos da sociedade – as leis, os programas de TV, os remédios, o entendimento sobre moral, espiritualidade (ignorado e profundamente desentendido por todos). Pergunte aos fulaninhos sonhadores se sabem o nome dos profissionais que fazem as peças do celular que eles têm, ou as partes de um computador, ou os mecanismos de um computador... não saberia apontar como são feitos, nem por quem, nem onde... incapazes de ligar um processo de produção com outro, não podem supor o funcionamento das coisas deste tempo.
    Não bastasse a inferioridade intelectual, o que mais os diminui é a suprema insignificância moral de uma gente que só quer fazer o trabalho e ser bem pago e, por isso mesmo, associa a importância e relevância de um serviço aos ganhos que dele pode ter. Degeneram o valor do trabalho, diminuem a humanidade a meia dúzia de profissões e as possibilidades de vida ao bom e velho concurso público, além de reduzirem a força da ação intelectual a só o que vem dos centros acadêmicos.
   O bom e velho sorrisinho de desprezo não fica de fora, reaparece nos gladiadores da razão e da moral quando fala-se de valores espirituais, de caridade (estão te fazendo de bobo, não dou um centavo, vão gastar tudo com droga, entre outras desculpas), de bons modos, velhos costumes... é como pisar em ovos, ai vão algumas características do povão;
    a)    ressentimento visceral e complexo de perseguição;
    b) eterno sentimento de inferioridade e, por conseguinte, capachos de europeu, turco ou qualquer um que fale uma língua diferente do português;
     c) Não dão um passo sem pensar no lucro - se Jesus fosse brasileiro, seria um produto bem caro, de classe média alta, andaria de Mercedes no lugar de Burrico, e mesmo assim não funcionaria dada a falta de fé do povo;
    d) são incapazes de resolver os problemas práticos do cotidiano sem entrarem num profundo desespero ou em um estado de ânimos desconfortante.
   
     São tantos os pontos medíocres a serem assinalados, que precisaremos de uma série desse tipo. E assim o farei. 






    
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domingo, 10 de setembro de 2017

Nenhum direito a mais!

           A molecada já consagrou o bom e velho jargão “nenhum direito a menos”, também juntou o útil com o agradável e não para de pedir direitos a mais, o de transporte grátis, saúde grátis, educação, segurança; o de assassinar seus filhos ainda no útero ( e se possível depois de nascerem) e, claro, o saudoso pai das bananeiras e, consequentemente, senhor dos macacos, não vai negar nenhum direito a mais, aliás, é só pedir que ele dá!
   Mas não só de direitos novos vive a molecada, outras ideias distorcidas também competem pela responsabilidade de ascender ao comando da república dos maconheiros, materialistas, putas, aborteiras, e profanos um ditador; perseguição às grandes fortunas; distorções entre realidade e imaginação; doutrinação nos cursos de filosofia, letras, sociologia e história e, quiçá, ocultação de falhas lógicas, apologéticas, metodológicas, semânticas e estruturais na significação das ideias científicas e sociais ( não preciso citar fatos).
   A realidade, por mais distante que pareça, afirma: a força da escravidão estatal aumenta por vias tortuosas e manifesta-se pelo completo oposto daquilo que parece ser. O inimigo ganha poder no decorrer do tempo, e este – como dói dizer –, só pode surgir visceralmente preso à mentalidade comum que pede por mais direitos! Novo direito, novo braço para o Leviatã, nova forma criada para o estado nos tomar pelo braço e guiar os afazeres, a vida cotidiana, a educação dos filhos (vide: lei da palmada).
   Tome por verdade que só a propriedade privada produz riqueza para sustentar os direitos, assim, a coisa ocorre como um cu arrombado que, impossibilitado de sentir a dimensão do pênis, força seu dono a pedir cada vez mais, sendo enrabado por inteiro e, nem por isso, percebendo a dimensão da coisa. De outra forma, um punhal atravessado no peito do fulano que crê ser acariciado por um gracioso punhadinho de penas, e pede mais, e mais, e mais... até que tem o coração perfurado.
   No nosso caso não será o cu nem o coração ferido, mas a propriedade privada que, sendo progressivamente taxada por impostos, será dilacerada junto com qualquer possibilidade de comprar coisas – no lugar de recebe-las em forma de direito. – e, como num jogo de grandezas inversamente proporcionais, mais estado, menos propriedade privada, restam os donos dele e, consequentemente, os nossos donos.
  Não vai ter maconha que baste nos DCE das federais – maconha produzida em propriedade privada -, tampouco raciocínio lógico que resistia à pressão psicológica de um ditador fuzilando a família da molecada. Mas teremos todos os direitos, menos o de viver em paz.  

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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ideologia de merda e gente na coleira.


   Não são os poucos que, em nome da nova onda “conservadora”, ressuscitando uma religiosidade abestalhada, fazem renascer uma seita enlouquecida em que seus adeptos se autodenominam salvadores da humanidade, paladinos da moral, os “Lázaros”, que, revividos do reino dos mortos tardiamente, trazem consigo os bons costumes, a cristandade adormecida no mundo, a coerência e a integridade sexual; os sem problema do século vinte e um. Não vou citar a cronologia do pensamento conservador, coisa que não nos impede de evocar a ideia de que não se resume em cristandade, nem em religiosidade, nem em perseguição aos protestantes. A coisa vai além, segue a ideia de conservar aquilo que perdurou nos séculos – mesmo sendo os ritos religiosos, a laicidade do estado em detrimento ao ateísmo protestante ( como desejam alguns socialistas imundos ), ou mesmo conservar a própria estrutura do estado – Como acredita Burke (1729), no estado como mecanismo essencial ao progresso humano – vide “Cultura e Sociedade”, de Raymond Williams – ou  como manda a boa tradição, ficar com os dois pés atrás no quesito exterminar o estado, seja por uma revolução comunista, ou por uma “inverlução” Anarcocapitalista.
    Ainda criam um hiato entre conservar e desconfiar novas tradições. Não podemos esquecer a depreciação estética ocorrida no pós-pós-modernismo, e evocar Roger Scruton (outro conservador), para recobrar o sentido do belo em “por que a beleza importa”, relembrar os conceitos de beleza sublime, beleza prática, relembrar São Tomás de Aquino que unia o que é belo e bom para encontrar Deus, e vamos citando autores avulsos para criticar o conservadorismo boboca de alguns que acham, do fundo da alma, que ser conservador é cuspir no outro por ser diferente, por ser de outra religião ou por não ser um cristão tão bom – Submetendo até os ensinamentos de cristo aos entendimentos pessoais de moralidade. Não vou construir aqui um manual sobre conservadorismo, não é nem de longe minha proposta, nem tampouco mapear a tradição dos autores ditos como conservadores desde Platão aos críticos do Marxismo como René Guenon, Alain Besançon, Roger Scruton, ou os liberais bastante lidos nos últimos tempos como Mises, Murray Rothbard, Hayek...
   E, no meio disso tudo, até onde vai a maldade no coração dos homens? Para sustentar algumas atrocidades evocam a tradição conservadora em nome dum radicalismo boboca contra qualquer mudança na sociedade, ignoram a presença de forças impessoais que agem no homem, e, se um dia Jesus havia deixado bem claro o respeito ao próximo e o “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”, seus seguidores, distorcendo suas palavras, fazendo uma releitura de “Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim os inimigos do homem serão os de sua própria casa” (Mateus 10:35), começam uma nova cruzada moral que degenera qualquer descoberta Behaviorista, renega toda sociologia instrumental, todas as teses Estruturalistas sobre o comportamento humano, formação da linguagem, renunciam a existência do inconsciente e da absoluta diversidade dos costumes e tradições que moldam os sistemas sociais desde tempos imemoriáveis. Negam também que todo fato surgido em qualquer tempo tenciona os costumes antigos, não de forma a exterminá-los, nem de reduzi-los, mas, como eles próprios já cogitaram um dia, pedir seu lugar ao sol, aceitar-se nos ambientes de discussão intelectual – quando apresentados sob a devida seriedade e embasamento -, foi assim com o espiritismo de Allan Kardec – vide “o livro dos espíritos” -  (1857), depois com Animismo e Espiritismo de Alexandre Aksakof (1890, inegavelmente perseguidos pela Igreja Católica e pelo materialismo positivista – Que comece o piti dos defensores da papas, bem reconheço o valor da caridade católica, da teologia Tomista, da escolástica medieval, da contribuição à teoria literária pela leitura clerical dos textos bíblicos -  e digo perseguidos pois, assim como hoje, tiveram seus argumentos ignorados e ridicularizados antes do exame sério.
   O poço é mais fundo que isso. Um sujeito humilhado se junta com outro, que se junta com mais dois, que se sensibilizam, que criam um inimigo coletivo e, no andar da carruagem, temos o oprimido coletivo, que, invariavelmente, tem um opressor coletivo, e digo isso sem recorrer ao discurso esquerdista padronizado de “opressor e oprimido”. Falo do velho fato cíclico invisível, sustentado pelos neocons, impulsionado por meia dúzia de racistas filhos da puta que precisam de uma ideologia – mesmo que distorçam ela – para sustentar a imundice de suas atitudes, até evocando o próprio cristo em nome de enfiar uma coleira nos outros como cães de passeio onde se escolhe a cor do pelo, se late muito, se é muito pegajoso, se precisa de muita atenção, se os costumes sexuais lhe agradam – no caso do cão você pode castrar, na ausência disso, no mundo real, você pode humilhar o outro até que se sinta castrado na sua presença e você, o dono da coleira – nunca o dono do cão – se sinta senhor das duas coisas. No mundo real não se pode colocar pessoas em coleiras, o que não impede de castrarmos o próximo de alguma forma torcendo a cara pela cor do pelo, pelo latido, se está no cio, se escolhe uma outra raça pra procriar... pouco importa, na ausência de cachorros, eles querem um humano pra pôr na coleira. 




      
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sábado, 26 de agosto de 2017

O HOMEM SEM CORPO ALGUM



        O HOMEM SEM CORPO ALGUM 
  
1)  
    Acordo de madrugada e abro a porta promeu amor, sou grato porisso, mesmo desperto de súbito. Agradeço por ter de volta quem eu amo, por ter alguém amado dormindo sob o mesmo teto, agradeço porestarem vivos. Agradeço porescolher estarcomigo, e por não me abandonar a ermo, de não me amar só nas horas boas e não esconderos dias ruins.  Sou rico de pessoas; tenho o que devo ter.
  Não posso dizer essas coisas, nem de longe são verdades.     
     Deitei de lado na cama tentando espantar a dor. Revirei o corpo, juntei as pernas na barriga, olhei pro teto, senti a cabeça pulsando e a visão estremecida pelos remédios fortes. Tentei engolir a saliva: presa na boca, com gosto de sangue. Não descia, entalada, sufocante; humilhante sensação de um corpo degenerado e fraco, com os movimentos tolhidos e limitados. E a dor vinha, mudava minha posição na cama, doía do outro lado, sufocava-me ainda mais com a baba que não conseguia engolir, sentia as pernas pesadas; no peito o coração palpitante e a angústia de uma morte que não se decide. 
   Não só o corpo doía. A alma deserta de pensamentos, de molho ouvindo o zumbido dos ouvidos que nada diziam para angustiar cada dia mais meus pensamentos vazio. E vinha e voltava a sensação de que nada mais restava e só faltava o corpo apodrecer para partir em paz. Quando acordava, da boca saia o odor de cem crianças mortas e apodrecidas, os dedos tremiam descontrolados pela falta de açúcar e isso durava por horas mesmo depois de comer. Respirava ofegante, suava a ponto de trocar o lençol duas vezes ao dia, e por ora o mijo vazava pelo canto da fralda mal colocada ou tirada pela mecheção. E o quarto fedia enfermidade e sujeira. Nem a luz do sol queimava o cheiro do mofo, do catarro, das merdas mal limpas, do sangue cuspido durante a noite, e tudo ficava lá, flutuando, misturado no ar abafado e doentio do quarto. 
    As janelas não se abriam e nem as cortinas, como num túmulo abrigando um morto vivo. Também não aguento sol, nem o ar sujo lá de fora. Prefiro o daqui, sei dos cheiros e de onde vieram. 
   Se eu tivesse o escutado naquele tempo, se por um instante tivesse aceito a realidade dos fatos, me tornado uma criatura melhor, minimamente digna, não teria acumulado tanta imundice num corpo só. De certa forma mereço cada instante de dor que assola implacavelmente meu corpo, dos afogamentos sonhados – que sempre terminam em mais mijo – das feridas no canto da boca, das úlceras garganta a dentro; não há injustiça aqui, nada veio por acaso. O que mais dói é o remorso que dilacera meu coração e estremece a alma, coisa que não se cura com remédio, só resta deixar doer e repensar nas coisas ditas, nas palavras sujas, na vida desmerecida, em tudo o que fui e não deveria ter sido. O que dói é o remorso, como dói o remorso!
   E as lembranças boas que resolvem voltar logo agora? Se esfregam em mim com tanta força, querem que eu veja como minha vida era perfeita, tudo era tão bom sem as feridas, com a mãe e o pai por perto, sem entender nada do mundo, com a comida pronta e as roupas limpas e os passeios e os amigos. Como dói o remorso! Como arde no peito lembrar das coisas boas que ficaram!
    Como dói me ver daqui e lembrar a mesquinhes de um adolescente que odeia o mundo por tanto desejar os olhos de atenção, por querer aplausos onde existe indiferença, que quer colo e doces e chamegos e que falem com voz fina, que quer a realidade abrandada, que não suporta o vento do furacão nem a água fria da chuva. Como ele odeia o mundo! Como odeia tudo por não ser amado por todos! Como dói o remorso... como machuca não ter visto o óbvio!
   Como dói não poder ajudar, como dói sentir os olhares de deboche e de julgamento precipitado: eles se divertem tanto com o sofrimento alheio e se contorcem ao menor sinal de paz.
    E o povo da moralidade estética? Aquela gente que só vê o certo e o errado no que é bonito e feio aos olhos, ressentem e odeiam no outro tudo o que renegam em si... não mudariam o mundo, nem podem, pois não sabem a origem das coisas nem onde elas vão parar; não entendem o nascimento daquilo que sentem, como podem retorcer os olhos para quem sofre ou se alegra com as coisas que não podem ver? Não enxergam o mundo das leis, nem podem tocar na origem atemporal dos sentimentos, não controlam nem o próprio choro, nem sabem por onde anda a paz que deveriam sentir, tampouco a perfeição que enxergam neles mesmos...
    O fogo vai queimar a casa de madeira, deitar em pó o corpo vulgar, reduzir a cinzas o que o dinheiro comprou, estremecer a paz do telhado de palha, tostar a pele macia, cegar os olhos azuis cor de oceano. O mesmo fogo que ferve o leite, que aquece a água no frio, que rasga o escuro da noite e revela vida nova ao mundo das trevas. O fogo há de queimar o bom e o mau, o justo e o injusto!
   E percebeu que as coisas têm mais beleza quando imaginadas, que o fim do mistério trás o gosto amargo da verdade e que tudo é um grande adeus. Percebeu que não suportaria a dor que causou no outro e que o conforto de sua vida fora construído por mãos escravas. Percebeu que não moveria grão algum sozinho. Percebeu que no alto da fonte tinha um cadáver, e que bebeu sua água suja desde sempre.
   E teve o outro que nunca agradeceu, que fez tempestade na colheita alheia e propagou o ódio dentro do lar. Soube ele que, se odiasse os filhos e só os filhos, cobraria a revolta no sustento que um dia os deu: a palmada era livre, os gritos revelaram-se intermináveis, a discórdia no lar; o pai que matou os filhos de desgosto e que exigia ser amado. Como? Ganho do outro aquilo que lhe entreguei, o resto é pagamento e só pagamento. Ele era dono da carne, comandante do controle, senhor no carro, nas compras... era dono de tudo na casa... mas nunca fora dono de ninguém, o tempo da escravidão já acabou! Eles não pensam como você, nem sentem como quer, tampouco julgam o bem e o mal desta ou daquela forma estabelecida por você, homem do lar! Quantos segredos eles escondem por medo? Qual é a vida que você enxerga? Não são seus cachorros só por dar alimento e casa...  
    Mas o garoto está revoltado, mal sabe o que come, nem quanto tempo dura suas crises de tristeza e alegria; tão envolto num sentimento de incompletude; não cresce sem a presença de admiradores, nem age sem ser louvado e aplaudido. O garoto não suporta ser odiado; castrou-se diante da dolorosa realidade do mundo. Carinho e afeto goteja, não escorre aos montes. Nega isto, entrega-se por completo a qualquer um; torna-se vulgar e mal amado. Força a realidade dos fatos que é bem determinada.  
   Mas ele não suporta tanta coisa, por isso arrancou os olhos com aquilo que viu.
   












2: um homem qualquer numa cama.
          
    Tio e primo vieram: encomendar a alma. De pé ao lado da cama rezaram juntos o rosário. O primo segurou minhas mãos e olhou fundo nos olhos sedentos, imersos nos orbes. Reparou cada detalhe do rosto pálido com barba por fazer, com roupa fedida pelo banho recusado, de lábios escurecidos, rasgados, presos no corpo de um imóvel com as forças reduzidas a movimentos fracos de braço e perna. Já devia estar morto, queria e deveria! 
     E rezaram soltando palavras vazias como só um doente pode sentir. As preces eram seguidas do olhar de pena que reparava no quarto pobre, com pouca coisa, uns santinhos espalhados, uma janela sempre fechada; tinta velha na parede.
    As caras se encontram, as sobrancelhas levantavam, um sorriso incompleto. Risadas engolidas e um deboche internalizado; o homem está sedento por misericórdia e preces. O primo arruma o terno barato no corpo magricelo. Solta a mão do doente, desabotoa o paletó, prende tudo de novo, puxa os pelinhos caídos na calça; olha pras paredes sujas com pintura cor de pêssego já desbotada. Esperava a vez de completar a reza. Fizeram assim por uns vinte minutos, até que tudo perdeu a graça. Nenhum milagre, o homem estabilizado na cama e sem sinais de que ia morrer ou ter um troço, assim não tem graça.
O tio andou pelo quarto e pegou a vasilha de água na mesinha ao lado da cama. 
-  Quer? 
-  Ele não consegue assim... – Disse o primo. – Tem que ser a enfermeira ou ele sufoca. – Olhou pra mim e sorriu com pena. Sempre assim, sempre com pena, desprezo, dó...
   Veio o tio. Encheu o copo. Bebeu um gole e trouxe pro camarada deitado. 
-  Ele não pode! – Insistiu o primo. E em mim apareceu a pontada de medo, sabia que só bebia de goles curtos; engasgava com pouco e quase sufocava com muita água de uma vez, nem a comida descia assim. Eles sabiam. 
-  Shiii. – Só quero fazer uma brincadeira. – Sorriu. Sabiam muito, alias... 
-  Não acho boa ideia. Ele mal consegue se mexer... 
-  Por isso mesmo. Quero ver como funciona com a pessoa desse jeito – passou do outro lado, torceu minha cara. Riu. – Engole! 
    Juntei forças e virei a cara pro outro lado, já com os olhos esbugalhados do susto. Era pra rezarem, e só. Me lembrei da vez que os dois afrontaram o resto da família: são pecadores, merecem a exclusão. Meus pais fizeram o assunto morrer depois de perdoarem o tio e o primo, mas eu não, eu sempre lembrarei daquilo, dos dois varando o outro lado da rua, torcendo o nariz, afrontando a todos, anunciando o fogo eterno para cada um dos infiéis. Da vez que dei ao tio um pano pro frio, sorriu baixo, “seu pecado tocou nele, vai me sujar com isso!”, disse. Foi assim com a roupa, depois com a água que disse estar preenchida de veneno da alma, e falou depois de ter bebido “você tocou nela, veio da sua casa”, e vinham os dois nos visitar, bravamente, no sol da manhã ou do meio dia, tirar o sossego, estudavam a palavra do altíssimo na presença da minha saúde plena, e no virar da porta, desciam a língua pro povo da rua: cada dia uma fofoca nova e uma nova condenação ao fogo do inferno. Comiam no cantinho da mesa, com cara feia, torcendo o rosto – o mesmo sorriso do canto de boca – depois faziam questão de rezar nos domingos de família: “senhor Deus, perdoe os pecados de todos eles... senhor Deus, eles não fazem o que fazem... e que um dia eles possam enxergar a dimensão do mal que estão inseridos e possam se converter ao caminho do bem”. E meus pais, tão sonsos e acolhedores, engoliam cada gota daquelas palavras entendendo como verdades. 
     O primeiro gole desceu. Depois a água entalou na garganta, vazou pelos cantos da boca escorrendo pelo lençol. Os pontos na bochecha se repuxaram e causaram mais dor do que antes e comecei a revirar na cara procurando me salvar do afogamento. Faltava-me o ar e o corpo mole da doença já não tinha a menor força para resistir. Tentei revirar evitando o copo, mas o primo me segurou pelo cabelo ensebado, puxou, riu, o tio continuou descendo e esvaziou meio copo na minha garganta irritada pela sonda. Dei  O máximo que fiz foi balançar a pontinha dos pés mexendo os dedos de um lado pro outro, suando de pavor, estremecendo com a possibilidade de morrer afogado com um copo de água dentro do próprio quarto. A reza alta do primo, o tio rindo, meus olhos se revirando. 
-  Continua pra ninguém ouvir. 
    Tentei levantar. Os braços não respondiam, as pernas pesadas, tudo preso na cama, cada parte do corpo como se já estivesse morta. 
-  Vai lá e busca a enfermeira. Fala que ele olhou pra água e que não sabíamos que não podia. 
    Voltei a respirar. Tio me olhou como se tivéssemos um segredo. 
A estranha sensação de traição. Da vez que ele e os primos vieram com a ideia de que o resto da família era de pecadores e que era pra ficar longe. Quando mudavam de lugar na rua ignorando os parentes, e viviam na moralidade superior, senhores supremos de um futuro já salvo, sem deixar de afogar um doente quase morto. 

   E não foram poucas as visitas que recebi. A maior parte de gente que nunca vi na vida e que apareceu por lá, do lado da cama, só pra olhar um sujeito quase morto e sentir paz por não ser ele. Teve uma velha de uns oitenta anos que veio, sentou do lado da cama, me olhou nos olhos e se pregou na minha cara como se fosse me beijar. Lá ficou. Parada uns cinco minutos olhando cada milímetro da boca rasgada pela doença, cutucando o olho afundado, soprando no ouvido pra me ver torcendo a cara – com dificuldade – , fechando os olhos, se afastando da cama, cutucando meus pés, braços finos e depois, como se nada tivesse feito, rezou um pai nosso. É bem verdade que eu já estava muito rezado, não sei aqueles que vinham no quarto, mas não me faltou pai nosso nem ave Maria. Mas na verdade, Cada pai nosso me lembrava o tio e me causava pânico de morrer não pela doença, mas afogado num copo de água. 
   O casal Silva veio e trouxe os dois filhos – Antonieta e Lúcio – ambos mais ou menos da mesma idade, por volta de seis anos. Ficaram de pé, abraçados, com cara de dó – como todos os outros. Os meninos fuçaram no quarto, os pais ignoraram. A menina abriu o guarda-roupas, puxou um cobertor mofado lá do fundo e jogou no chão. Só pude reparar o andar da carruagem. O garoto despejou água no meu pé direito. Encolhi os dedos com o susto. 
-  Ta vendo mãe, ele ainda meche as pernas!  - Ela balançou a cabeça concordando. A menina puxou todas as roupas e cobertores lá de dentro e espalhou pelo quarto, depois, cansada dos cobertores, abriu a cortina e fez a luz do sol queimar minha pele sensibilizada. Tentei gritar para que fossem embora – ou que se matassem; só saiu “vá...”.
-  Que lindo. Tá chorando de alegria com nois aqui! – Disse a mulher.
-  É... – Concordou ele. 
   Tentei outra vez. Outro “vá...” e a mulher tirou o cabelo do rosto, refez o sorriso, respirou fundo.
-  Ele parece que tá tão calmo, sonhando acordado. – E o sol torrando minha pele.
Nem parece doente, né? Acho que é coisa psicológica. – Ou eram cegos, ou loucos, ou fingiam pra me sentir mais idiota. Se era psicológico, pior ainda. Um sujeito tão louco que se entreva numa cama dum dia pro outro! Ficaram mais uns minutos, tempo suficiente pros meninos arrasarem com o quarto.           O moleque encharcou a cama com água fria, a outra criatura abriu os cobertores como tapetes e sapateou com os pés sujos de terra. Deixaram a cortina aberta e a enfermeira voltou depois de muito tempo, até que o calor do sol tivesse causado alergias na pele. Resmunguei pedindo ajuda por um tempo, mas ninguém veio, como das outras vezes. Ninguém nunca vem.
   Fiquei só de novo. Dessa vez com a janela fechada e o silêncio do quarto, daqueles que causam até um zumbido estranho. Foi a mesma solidão de quando tive um ataque de asma, e sufoquei dentro do banheiro quando tinha onze anos. A água da ducha descia resfriando meu corpo caído ao chão de cerâmica. As gotinhas de lágrima carregavam-se pro ralo, as rezas eram muito baixas pra qualquer espírito amigo ouvir. Sufoquei sem força pra gritar.
     Começou com um ar que não bastava, que parecia sumir a cada gole. Depois meu peito foi se tornando pesado e fui me desesperando. Apoiei na cerâmica, tentei fechar a água, desabei no chão antes disso e a visão escureceu e imaginei a morte se aproximando. Não queira dar adeus tão cedo, tinha medo de sentir saudade dos pais, dos brinquedos, do cachorro; tinha medo do escuro e dentro da terra não poderia enxergar nada, fechado no caixão, abafado, quente, claustrofóbico. Senti medo das rezas que fariam por mim, cheguei a ouvir o choro de todo mundo ao redor do corpo; ficaria sem os doces da tia Maria das Dores e outros meninos ganhariam as cocadas. Eu não comeria nada além de terra, lá no fundo do cemitério do cruzeiro, depois de ter sufocado com asma no banho, sem força pra gritar. Eu queria os brinquedos por perto, pescar no fim de tarde com meu pai, comprar uma botinha nova com couro amarelo. Não recusaria nenhum vegetal, bateria na boca pra não falar palavrão.
     O ar parece feito de chumbo, o corpo já sofre como decomposto e enterrado; já posso sentir os vermes da terra.
   Deus pai, paizinho do Céu, Jesus!
   Eu tremia de frio como enterrado no gelo e chorava pedindo perdão por tudo, por ter sido teimoso, por não ajudar em casa, pelas meias sujas, pelo cachorro sujo.
  Romperam a porta. Pulou meu pai e me pegou pelos braços já me pondo pra respirar a bombinha. Estava salvo! Senti a vida voltando, sendo carregado nu até o quarto e só ouvindo os pedidos de desculpa saídos da boca de uma criança, a mãe gritando ao fundo, pulos de desespero pelo filho quase morto.

3. Nada de revolta


    A enfermeira sacodiu as cobertas, dobrou e guardou no devido lugar. Esqueceu da cama molhada, como sempre esquece. 
-  Descansa. – Disse. Como se não estivesse descansado o bastante. A porta rangera quando saiu. 
    Voltei a pensar na vida e naquilo que me tornara, nos dias que estava saudável o suficiente para não merecer ser saudável e quando era mais um no mundo, um entre milhões de seres humanos indigestos. Pensei na sala de aula e na cultura que um dia tive, morta e enterrada nesta cama cheia de mijo, afundada pelo peso constante de um homem que mal se meche. Já o corpo, um dia exibi com saúde, com fogo e desejo de trepar – incessante máquina de agorismos e de vulgaridades – e só servi pra isso, vivendo no cio e me pondo como senhor da moralidade superior. Como dói lembrar e saber que mereço tudo isso.
   Teve o tempo dos preconceitos, Era que tive o coração assolado por maldade, dos olhos saia a censura e eu julgava sem fim. Fiz mal por não saber a origem dos descontentamentos nem o porquê deles, igual meus tios, meus primos, igual meus amigos... o mal não sabe de onde veio nem para que existe, ele se faz por si só, pelo mero prazer de existir, pois o bem tem força igual e sabe de onde veio e para onde vai, também sabe medir sua força, e sabe quando existir, sabe a hora de começar e parar. O mal aparece sem tempo de acabar, sem saber de onde veio, sem medir força, não sabe quem ataca; o mal não tem rumo nem sentido, e é isso que o difere do bem. E eu fui mau!  Fui uma criatura deplorável, de moral estética, que só julga o que é bonito ou feio aos olhos, que causa desconforto mesmo que o meu descontentamento signifique a felicidade do outro. De não suportar as diferenças e ser incapaz de falar sem ferir.
     Aprendi que palavras duras e cheias de ódio são sinais de alma vazia, companheiras inseparáveis de gente fraca e fragilizada com as coisas da vida. Aprendi que não existe uma só forma de falar ou de pedir socorro, e que ele vem no desespero, mas que, na falta de ar, na eminência da morte, o corpo já não tem solidez para espalho. Os desesperados não têm força para gritar! Aprendi que os gritos de desespero nem sempre surgem dos desesperados, que se chora por dentro antes de escorrer pelos olhos as lágrimas dos sintomas... os mais frágeis parecem feitos de pedra, e não manifestam, e sentem calados, e recebem calados as pedras atiradas!
    Reneguei todas essas premissas, sou um homem mau!
    Das vezes que atravessei o olhar passando pela faxineira e ignorei seu rastro. Fiz por prazer e por convicção, como rei que me imaginei ser, e trouxe o pé sujo de barro que arrastava pelo piso, deixava as marcas com o prazer de voltar e ver tudo limpo. Subia o sorriso – o mesmo que vejo todos os dias nas visitas. E ela limpava. Chão esfregado, pegada sumida. E eu repetia isso todos os dias. 
    Da vez que entupi o banheiro e deixei a água vazar pelo chão. “Alguém fez isso!”, palavras repetidas o tempo todo, e lá vinha a pobre mulher, negra, beiçuda, que fiz de mucama por boa parte da vida. O barro dos meus pés juntou com a água e fez um pântano. 
  Dos copos quebrados na sala dos professores. O mal é vaidoso. Sentia o poder daquilo que fazia se espalhar como coisa do acaso, como se nada fora do normal acontecesse, e se ninguém sentia de verdade aquilo, se nenhuma alma viva se sentisse atormentada, era só diversão. 
  Das vezes que reprovei por serem negros ou viados. Fiz o que todos fazem. Não gostava de pretos, nem de viados, nem de gordos, nem de gente diferente, e odiava quem tinha algo que eu odiava. Fiz sofrerem e adorei! Os meninos gritando do meu lado, se arrastando pela escola, pedindo meio ponto, outra prova – explicando a situação dos pais separados, do irmão morto prematuramente, da geladeira vazia, da doença. – Me espantava as desculpas. Tornava a coisa mais saborosa ainda, rebaixados ao subsolo! Já não podiam ser pisados, só enterrados. E falava “fiz o possível, foi você que não estudou”.  É bem verdade que em alguns casos eles procuravam, mas não era por isso que estavam lá, reprovados, suspensos, humilhados pela autoridade do professor. Sempre com um chiclete na boca, mascava o dia todo, olhava sempre com o nariz empinado e mascando incessantemente. Fazia isso com os pais, com os alunos, com todos... e estes, em especial, eram mais lerdos. Tinham receio, mas acabavam por respeitar, de algum modo respeitavam. Lembro da professora de física que atormentou uma menina o ano inteiro, ela não gostava de loirinhas por ser negra, algo assim. Fazia surgir cola nas provas. Zero nos trabalhos. Fazia-a sentar nas primeiras fileiras. A menina fora perseguida e os pais, como na maioria dos casos, pelo menos naquele tempo, apoiaram “o senhor ta certo. Fazendo pro bem dela”. Os dois eram médicos, ricos de espírito e de dinheiro, queriam boa educação, queriam uma menina bem castrada dos instintos infantis, e nem perceberam a barbárie. Percebi o quão fácil é perseguir e infernizar a vida de uma criança numa escola, e na vida. Também percebi que existem infinitas maneiras de matar alguém que ainda continuará vivo.
 
2)  
      Sonhei com samambaias gigantes balançando numa tempestade. Os braços desciam do alto de árvores imensas numa floresta raivosa que parecia me devorar e doía o desespero de correr – pelo menos no sonho eu podia – e corria, corria sem rumo fugindo daquelas coisas e a água da chuva era quente, escorria pelo corpo de cima embaixo. Vi as folhas da floresta se remexendo com os bichos e com os pingos de água caindo, os fluidos descendo pelos troncos, as centopeias se arrastando pelo chão com as pernas nojentas. Aranhas, cobras trocando de pele. Mais água quente. 
Acordei com o pinico na cabeça.
  Escorrido de cima embaixo, das pernas até a cabeça, regado no mijo quente do fim de tarde. Era o maldito filho dos Silva. Ele tinha voltado, não sei de onde, do inferno, provável. Com um sorriso jogou o pinico na minha cara – todo mundo só faz sorrir nesse lugar. – E saiu pela porta acelerado, rindo. 
     Demorei uns segundos pra entender o que tinha acontecido.  Fiquei no escuro. Esperei forças pra mexer a cabeça e tirar aquilo dali. Respirei, sentime tonto. Esperei as coisas voltarem a o normal e revirei a cara pro outro lado. O pinico escorreu pelo lado direito da cama e caiu no chão. Fez um barulho alto, deu umas voltinhas, ficou de boca pra baixo. 
   Nesse meio tempo, só engoli o ódio. Fiz os velhos exercícios de respiração e afugentei a vontade de estrangular o menino. Te digo que vale mais uma ação educativa do que punitiva e só quem sabe os motivos e a intensidade da punição pode punir. Eu, se algo fizesse, no máximo seria soltar murmurinhos estranhos que soariam engraçados. A verdade é que faz tempo que perdi a capacidade de sentir raiva, sei que depois dói a cabeça e aquilo me persegue por horas e não tenho como reclamar da dor: só dói e pronto, dói até que passe e eu fique de conversinha fiada com meus pensamentos, agoniado até a espinha, sentindo as agulhas entrando e saindo da cabeça e, no final, a dor me pune mais do que a raiva. Daí eu ri, ri da figura estranha que tinha virado, ri do homem que está enfiado numa cama faz dois anos e não melhora. Ri das mãos que não respondem, dos movimentos desconjuntados, das pernas afinadas e apodrecidas, ri do homem que espera a morte que nunca chega. Ri da minha arrogância e prepotência no passado e de tudo o que virei agora; dependo da enfermeira, dependo da caridade de tantos que cuspi por serem analfabetos. Nas fraldas, vivendo como um bebê. Não tinha mais alunos, nem meus diários de classe, nem as provas pra corrigir ou montar, só a preocupação em saber se o velório estava pago e se morreria da doença, afogado em mijo ou assassinado com um copo d’água. 

             
        Já tive pai e mãe – todos já tiveram – mas nem todos sabem onde foram parar. Os dois sumiram na manhã de natal, tem uns que dizem ser sequestro, outros, assassinato. É assim que é e pronto. Só lembro do cabelo cheiroso da mãe e da barba do pai. Eu sentado no sofá da sala e ela deitada num colchão; dali se passavam horas assistindo à porcariada da TV, falando da vida dos outros, ela inventando fofoca das amigas do trabalho. Falava de cigarros, insistia que eu deveria ser um sujeito forte independente do que ocorresse com os dois. O pai trabalhava longe, só via de noite. Sumia por entre os caminhões na oficina, dormia depois de chegar cansado. E a barba branca, a barriga exagerada e os modos modestos. Se ninguém puxasse assunto, passava a vida toda sem falar nada; morria sem comentar de doença e ficava angustiado sem ninguém saber. Falava baixo e, mesmo sem comentar dos próprios sentimentos, não fechava uma porta sem antes fazer tempestade. As mesmas roupas todo dia, o chinelo que usava até rasgar a sola; esfomeado, buscava comida todo dia. Depois que os dois sumiram, morei com a vó até os vinte e sete anos numa casa grande de cinco quartos. Samambaias na varanda, braços verdes de dois metros varrendo o chão. Orquídeas amareladas e azuis que apareciam apenas uma vez no ano e um matagal sem fim no quintal. Umas galinhas soltas vadiando pela frente da casa, de chão batido. Cachorrada que da cria sem parar, vive sem casa. Uns aparecem com a as canelas quebradas, outros, com sarna, e o vai e vem de cachorros, galinhas, de orquídeas que florescem uma vez no ano e que enchem o saco. Entra e sai de tios o dia todo – três, na verdade. Tia Marta e Tio Bruno e o outro tio, o louco da fé. Na época ainda não tinha o primo. De resto, os outros dois eram ambos solteiros, vinham me visitar, comer, me ignorar, depois voltavam pra casa, lá longe; ela, no fim da cidade – na Taqueira – com a casa na divisa entre a rodovia que dava pra fora e a beira do rio. Quando as águas subiam lá pelo fim de dezembro, o entra e sai de gente começava – bota os trein pra fora, leva pra casa de vó a televisão, o sofá, amarra os cachorros no terreno alto do vizinho – evacuando o barraco de três cômodos até que o perigo passasse. 
   Já lá no fundo do barraco, um pé de manga, um chiqueiro velho feito em ripas de parajú e tapado com um telhado de telhas planas meio quebradas. Lembro dos amigos da rua tacando pedra nos porcos. Do vô atravessando um ou dois com o chucho e fazendo-os sangrar no chão até a vida se esvair completamente e pararem de mexer. 
  Lembro dos coqueiros onde fazíamos gangorra e do lote que parecia não ter fim. Tudo ao redor de um barraco pequenininho de onde se via os carros passarem lá no alto e, da rua, um fogão a lenha no fundo soltando fumaça alto. É a lembrança da casa da tia Marta. 
 O tio era louco. Teve uma infinidade de filhos dentro e fora do casamento, e tudo com desculpas boas. A religião permitia isso. Vez ou outra uma tia se revoltava e com a loucura de dividir a casa com mais de uma  mulher. E te digo que ele juntava as putas mais sujas da rua, fava um banho, levava pra dentro de casa e, se assim ela aceitasse, era sua nova mulher, mas com uma única condição; se converter às suas crenças. O mais impressionante é que só escolhia moças bem novas, de no máximo vinte anos, bem rodadas nos dotes da cama, e carregava todas pra dentro de casa, algumas até com filhos - agora é bem entendível os motivos de tal homem tentar me afogar num copo d´água. Teve uma vez que chegou a ter seis mulheres e onze filhos – todos bem cuidados dentro dos limites de sua fé - , nenhum comia carne – coisa que, creio eu, ser mais uma desculpa para fins de poupança do que para racionalidade teológica -, só tomavam banho aos sábados – suspeito – dormiam cedo, não tinham nem TV nem nenhum aparelho celular – e te digo mais. Por mais absurdo que possa parecer, nada de luz elétrica. 
    A doutrina do tio se baseia num chá sagrado que, como diz a tradição, fora enviado pelo deus sólium no segundo dia, da terceira semana, pós o natal cristão. A tradição manda que seja tomada a solução de doze folhas de boldo para cada litro de água pura – filtrada em filtros da marca São João. O chá deve ser preparado apenas por mulheres e só quando estão reunidas a mais de três – por coincidência, meu tio sempre tinha quatro ou mais – seguridade do processo, claro. Os irmãos Sólium e Natanin lutaram por um lugar no trono celestial. A briga acabou com a morte do pai celeste – Iporoni – e com a expulsão de Sólium pelo irmão Natanin, ele desabou dos céus e se tornou um maravilhoso... boldo. Até uma criança – nem precisa ser das mais esperta -  cria uma mitologia mais convincente. O boldo sagrado – digo – Sólium desceu dos céus em um meteoro e nasceu abaixo de um abacateiro e por ali resistiu por cinco mil anos... até meu tio enlouquecer e criar esse conto. Chamo de boudismo 

      O mais triste da vida é ver tudo que te cerca e constatar: logo tudo se cobrirá com mofo, do movo apodrecem, depois tudo vira pó. Vai assim com as coisas que tenho que perdem a graça tão rápido, e até com as que não tenho; amadureço mais rápido que o desejo de as ter. 
     Mas se um dia amei as pessoas, se porventura tiveram algum valor de causa, também tive certeza de perdê-las algum dia e, agoniado, o tempo todo na espera incessante, sabia que partiriam a qualquer momento e, pela lei da vida, vão os pais, depois os filhos, depois os netos, até que se enterra a família toda. 
    Se um dia amei algo, foi pelo medo de perder. Vem escrito nas coisas e nas pessoas que só o que acaba pode ser amado e desejado. É de lei também que a vida é feita de momentos que, como a própria ideia de passado, acabam tão rápido quanto podem ser amados: quanto mais curto o momento de felicidade, mais especial, e de momentinhos acumulados se faz o passado que nos fez, passado que parece ter um segundo, mesmo com os tempos de inferno. 
   Mas acho que não tive passado. Foi tudo um sonho noturno. Um pesadelo. Aprendi isto com ele, foi ele que me ensinou. Agora não sei pra onde foi, ele não fala mais, está calado faz tempo, nem adianta chamar. 
 

             
       Acordei com cãibras. As pernas, mesmo fracas, ainda davam sinal de vida. Como formigas caminhando entre os dedos, na sola do pé, nas cochas, tomando as pernas por completo. 
       Os pés foram colocados no alto de um travesseiro – impedir trombose. – Estavam pálidos e quase mortos. Queria gritar pele enfermeira; só me restava esperar que aparecesse e, por misericórdia, tirasse os travesseiros. Pareciam esmagados e triturados por uma força maior que parecia se vingar de tudo o que fui um dia; era as mãos do destino me punindo. Como ardiam as pernas, que agonia incessante! E quantas vezes rezei para que Deus me matasse? Você pode imaginar as inúmeras vezes que juntei forças pra rezar olhando fixamente pro cristo, com os olhos pingando, da dor de chorar vinham as agulhas latejantes na cabeça. De tão descrente nele não morri, ou por vingança ele me deixou vivo. 
     O pânico veio rápido. A respiração ficou acelerada, e na medida que sufocava com meu próprio desespero, sugava o ar de forma a tremer o corpo por completo. Podia sentir meus lábios ressecando e o choro silencioso de um homem sem forças. A garganta parecia tomada por areia. Atrás dos olhos sentia como se mãos os empurrasse para fora dos orbes. E minhas mãos transbordavam com o suor frio que acompanhava os pés esbranquiçados pela ausência de sangue.  
   Deitado com os olhos levemente apontados pra janela da rua, assistia a cortina subir e descer soprando um vento quente e estranho – que sempre tive medo. – Vindo da rua esburacada que ousei um dia brincar de bola. Os pés erguidos tapavam parte da visão. As lágrimas apontaram, e daquela vez eu não segurei; Chorei como menino. A cama ainda molhada do pinico, fedendo a mijo, o quarto todo com cheiro de doença e uma enfermeira enviada do inferno, uma mulher incapaz de me tratar como gente, ou pelo menos como um bicho digno de pena. O cristo no canto da parede me olhava com atenção, parecia rezar dia e noite e só me restava esperar por alguma coisa vinda dele. E nisso só me restou rezar, desta vez não pedindo por minha morte, mas suplicando pelo perdão de tudo aquilo que fui, relembrando que só restava conversar comigo mesmo. 
  “Senhor Deus, já rezei tantas vezes. Tem gente que fala que o senhor já sabe de tudo antes mesmo do sujeito abrir a boca e falar, mas não vou parar de rezar. Tenho sentido tanta dor, tanta gente que amei um dia o senhor levou daqui, e nem sei onde foram parar meus pais”. Parei pra engolir a saliva que me sufocava. “E tenho sofrido, senhor, tenho sido um animalzinho, e sei que a vida toda fui como bicho, me comportei como um animalzinho malcriado com os outros, por isso sei que mereço sofrer e sei que devo sofrer pra sentir parte do mal que pratiquei aos outros, e agora não quero mais ser livrado desse mal, quero sentir na pele cada gota da maldade que fiz jorrar no mundo e cada lágrima que fiz jorrar nos outros injustamente. Sei de tanto mal agora, o mal que fiz com meu corpo e com o desprezo dado aos mais simples. Agora sou a mais insignificante de todas as criaturas, mal consigo engolir a baba, tem dias que sufoco com ela, tem dias que consigo virar o pescoço de um lado pro outro e o senhor bem sabe que são os dias mais felizes que sonhei viver. Quando o senhor me da forças pra olhar o outro lado, vejo outra paisagem. Olho a porta e tenho a euforia de esperar quem entra, e tem dia que é gente que quer meu bem, tem vez que é criança, tem vez que é gente velha, e eu posso ver entrar e sair. Abençoado seja o senhor por me permitir virar o pescoço nesses dias. E sei, agora, aqui, deitado nessa cama, que não merecemos nada, que nada é meu por direito e nada me é prometido, é tudo buscado. O irônico, meu Deus, é que se alguma coisa me fosse de direito é o movimento de meu corpo, coisa que nem sonho em ter, coisa que só me resta lembrar e dormir sonhando com a possibilidade de no outro dia poder mover parte da mão, engolir a saliva, e, se o milagre fora maior, virar o pescoço...”
    Dessa vez entrou a enfermeira empurrando uma cadeira. Escancarou a porta, parou do meu lado e pôs a mão na minha testa. Me encarou um tempinho e não demorou a fazer cara feia... 
-                     Ah! Tadinho, mijo na cama toda. Devia ter me falado. – Com dois segundos deu a volta na cama, abriu o guarda-roupas, tirou um lençol novo. – Deve ter ficado assim vários dias e eu nem pra ver... ô cabeça doida! – Me levantou de lado, puxou uma borda do lençol, depois passou pra outra borda e repetiu. Sentou-me na cama e... me jogou dela na cadeira de rodas. 
-                     Pera um instantinho... – Riu. – Deixa só eu resolver seu problema aqui! – Fiquei atravessado, o corpo estremeceu por completo e o quadril começou a queimar. – Já nesses dias eu já perdera a paciência com minha doença, então quando as dores vinham, no lugar de me lamentar, zombava de mim mesmo. Restava rir daquilo que me tornei e lembrar daquilo que fui. No meu sarcasmo, mentalmente falei, “não se preocupe. Prometo não fugir”.  Daí uns minutos trocou o lençol e ajeitou a cama. Me endireitou na cadeira e começou a empurrar pra fora do quarto, “seria um assassinato? Estou salvo!”. Não. – Hora do banho! – Disse ela. – Deve todo sapecado do xixi. – Concluiu. Saímos do quarto, ela cantando uma musiquinha irritante e incompreensível. Fui empurrado pelo corredor longo, do lado direito mais duas portas – os outros quartos onde meus tios moraram. – Vovó também morreu, os dois apareciam porventura no natal e no ano novo. Fiquei só na casa, aliás, eu, a enfermeira, e a doença. – Me empurrou até a terceira porta do corredor, o tão sonhado e maravilhoso banheiro. Abriu-a até o talo, me empurrou lá pra dentro. 
-                     Vou buscar a toalha. – Saiu. Fiquei só de novo. – Silêncio. Só o pingar incessante do chuveiro. A cerâmica branca instalada até a altura de uns dois metros, a janelinha quadrada aberta até a metade, a pia de cor amarronzada feita em cerâmica. Alguém inclinou o espelho do alto de modo que o aleijado pudesse ver diante dela – se, por obra de Deus, eu conseguisse me lavar. – Ela me deixou de frente pro espelho. Encarei a criatura sem medo e sem susto; por tanto tempo não me via, tinha emagrecido mais, deixado a barba por fazer. Vi os olhos afundados e o verde que desbotou. A camisola de hospital usada dentro de casa; o cúmulo da degradação, em todos os sentidos, fui reduzido a nada. E me pus a pensar, mais uma vez, pensando que não poderia esperar nada no mundo que já não estivesse em mim. Minha dor é pequena comparada a dos outros, e nem por isso sou mais conformado com ela, sinal que não é a intensidade da dor que cria sentido dela. Poderia ser uma picada de agulha, sentiria a perda de uma perna, ou a perfuração de uma faca. O tamanho do inferno que sinto não é do tamanho do inferno que vivo. E mesmo que o
mundo esteja em chamas, continuo frio, pois não sou o mundo e o mundo não sou eu, e mesmo que tudo esteja em chamas, continuo frio, pois não sei quem sou. Tem desgraça maior que esta, claro que tem, só não consigo imaginar. E não tem gente que possa dizer “eu sei..”, não sabe, só viu a parte, o pedaço, o fragmento, a pontada solução, aquela versão, a sua versão, o seu significado, e se não pode dizer que sabe tudo, não viu tudo, não sentiu tudo, e só pode sentir uma coisa de cada vez, longe de perceber tudo ao mesmo tempo, e se não pode nem ver tudo, nem sentir, só viu a parte... sou só o pedaço compreensível da desgraça maior, da minha desgraça, da desgraça que é pior. 
   Entrou ela. Eu nem tinha percebido: estava sentado na cadeira de banho.
Abriu a camisola e puxou pela gola me deixando sem nada. 
-                     Agora é lavar a inhaca! (Ouvi algo do tipo “agóraélaváínhaca”) Me enfiou debaixo do chuveiro, abriu tudo. Desceu a água fria que gelou. Respirei fundo pelo choque térmico, e o peito saltou acelerado. Depois a água começou a esquentar; do gelado pro frio, ao morno; ficou quentinha. Socou Xampu de bebe na minha cabeça. – Pra não queimar seus lindos olhos verdes, precioso. – Enquanto massageava meus maravilhosos e escassos cabelos pretos, foi contando casos de infância, coisa que nunca tinha feito antes. 
-                     Sabe, tive um amigo paralítico quando era mais nova. – Disse. Fechou o chuveiro e começou a esfregar a bucha nas minhas pernas. – Precisa ter vergonha não. cansada de ver pinto. O seu não é nem o primeiro nem o último. – Por milagre consegui soltar um sorrisinho no canto da boca. Pode ser que ela seja boa, pode ser. Retomou. – Ele tinha onze anos. Foi meu primeiro namorado, ele não sabia disso – Riu. – Adorava cuidar dele. – Aaaaa! – Não sei se te contei. Acho que não. – Eu estudava na parte da manhã. Cheguei a conhecer sua mãe, ela era bem mais velha que eu. Tinha uns 36 ou 40  e eu 20. Não sei quanto tempo tem isso, mais de uma década, eu acho. – Esfregou meu saquinho (que era como ela chamava) – E eu sinto muito por eles terem sumido assim do nada. – Se somem, é do nada. -  Aqui na cidade a gente fica sabendo de tudo e mesmo que você não perceba, tem muitas pessoas que gostam da sua família. – Seria bom acabar logo com o banho, diria eu se a voz saísse. – Quando sua vó morreu também ficamos sentidos. Você acabou ficando aqui sozinho, seus tios nem aparecem por aqui, só outro lá o... O doido. – E começou a rir sem parar. Deu umas boas gargalhadas. Ri também. Baixinho, na medida que dava. – vai me desculpar, mas tu não têm sorte nessa vida. Tem um tio doido, uns pais que some assim, do nada, umas ziquizira que aparece do nada e te bota numa cama, e olha, num é por eu ser enfermeira não, mas ninguém ia cuidar de você... – Doeu ouvir isso. O sorriso da gargalhada anterior fora engolido. – E eu sei que ocê pode ouvir e entender tudo. Sempre vi o senhor nas suas aulas, passando de terno na rua. Eu trabalhava na sorveteria antes de resolver virar enfermeira. Ocê num olhava pra cara de ninguém. Era um homem ruim, e não tô falando isso por você ta doente não. Qualquer um sabe disso e vai falar a mesma coisa. Esse povo que ta vindo aqui tem muito pra te falar... ah. Acho que já falei demais. – Pior que não falou um “A” que não fosse verdade, e eu não podia negar nada daquilo. Das pessoas que ignorei, do ar de deboche, do lixo de pessoa que fui. Eu mereço isso. No final das contas, mereço. 

             
3)   
   Conta-se que interrompia os alunos antes mesmo de perguntarem. Deixava-os com cara de tacho e muitos nem ousavam levantar a voz pra apresentar dúvidas ou comentários; eram os mais sensatos. E também conta-se que entrou um menino gordo e chamou por ele; de prato na mão saiu tomando o mingau quente. Respirou fundo, bufou, aliás, e o menino falou do dia que faltou por doença e que não fora ao médico por ter crido não ser necessário, mas que ficou em casa por falta de forças de vir à aula. Era um caso de boa fé, bastava ser compreensivo. Deu suas desculpas, falou que sentiu a garganta irritada já na sexta, no sábado nem levantou da cama, no domingo quase morreu de dor. Segunda acordou igual. Não veio por isso. Falou por uns dois minutos sem parar, e o professor ouvindo atento com o prato de mingua nas mãos. Balançava a cabeça concordando. Por ensaio do destino deixou o prato cair, 
   O mingau quente caiu. Escorreu pela cara do menino e pingou no pescoço roliço. Ele gritava e corria e se balançava e soluçava e se debatia e ele ria e falava, “Gente, acode o menino desastrado. Derramou meu mingau nele mesmo! ”, fez isso aquele dia e noutros repetia coisas piores. Tinha um punhado de dinheiro no bolo e já bastava pra se sentir o homem mais rico da terra. Se viesse um lhe pedindo ajuda financeira, um mendigo ou um amigo – supondo que tivesse um – exercia seu poder de retórica dando uma aula completa de educação financeira, humilhando o sujeito ao ponto de desistir do pedido e se arrepender de um dia ter cogitado lhe pedir algo. Um homem desesperado precisa de ajuda, a mais humilde e sincera que nos for possível dar, sem sermões morais ou que seja olhado como seu súdito, o sujeito tão insignificante ao ponto de lhe pedir ajuda. Estar necessitado de algo não te torna inferior, nem te reduz a servo moral, é compaixão banhada com vaidade. 
   Envenenava cachorros e gatos com a desculpa de limpeza, aos vinte e cinco anos já tinha matado mais de cem. Na estação de trem, punha vasilhas com água e ração para os cães vadios que dormiam debaixo dos vagões desativados da companhia bananeiras. Se dava ao trabalho de acordar mais cedo só pra isso. Fez isso até todos estarem eliminados, e o fato mais triste é que não enterrava nenhum, fazia questão de deixar os bichos caídos pelas ruas e ainda saborear o trabalho alheio quando alguém se dispunha enterrar os corpos. Os que morriam na estação eram enterrados num montinho na beira do muro de concreto, tantos outros eram deixados apodrecendo ao relento. 
     
    

 Parte dois


        

          Se tem algo que aprendi é que as palavras vivem pra sempre, ou no tempo útil para me envergonhar delas. É como nadar num rio, tem momentos que é mais seguro molhar só as canelas e não arriscar mais que isso. Não da pra saber o que tem lá no fundo, nem se tem algum bicho, nem se a correnteza vai te carregar. E de tempos em tempos, é mais sensato falar como todos tem falado sem inventar muita moda, ou pensar muito antes de fazer algo novo. 
   Aprendi com ele, foi ele que me ensinou. Mas ele se calou, acho que apara sempre. E fui ficando só com o passar dos anos, e os amigos do passado também sumiram, igual todos que amo e um dia me entreguei. Acabei ficando só num mundo cheio de gente. 

             4) 
    Naquele dia, atravessamos eu e o gordo pelos corredores vazios da escola pós turno. Nos escondemos no banheiro até que as vozes dos outros alunos sumissem, depois esperamos as tias da cantina partirem pra casa; ouvíamos tudo do banheiro, um eco cada vez mais silencioso até que, quando os primeiros grilos começaram a cantar, o silencio apareceu. 
-  Ou. – Disse ele. – Vamo? – Estava de pé na tampa baixa do vaso. – Já foi todo mundo embora! – Demorei a responder. – Ta dormindo ai, porra? – Abri a porta e sai. 
-  Vamo! Tem certeza que não tem mais ninguém? 
-  Tenho. Tem que ser agora, é a melhor hora. – Disse. Enquanto saíamos do emporcalhado banheiro. 
-  Se não tiver nada, tu me paga, vai ver. – Falei. E eu duvidava mesmo que tivesse algo de especial lá, igual qualquer um duvidaria, mas fui por curiosidade mesmo assim.  Saímos pelo corredor da escola, de cada lado doze salas, passamos por todas elas e subimos quatro lances de escadas até o último andar. 
-  Por que não esperamos no banheiro de cima? – Eu disse, ofegante. 
-  Eu sou o gordo e você que tem preguiça? – Aqui só tem três salas e um banheiro, e não tem banheirinho privativo. Por isso ficamos lá embaixo. 
-  Hum. Ta bom. – Não quis insistir no assunto. – E o que tem lá dentro? 
-  Eles estão lá, estão nos esperando faz tempo, desde a última vez que fui lá! – Apontou pra porta do fundo. 
-  Eles quem? São pessoas como eu e você? – Fiquei intrigado. – Você nunca me falou de forma mais aprofundada... – Constatei. As luzes foram apagadas e enxergamos o caminho por uma lanterna velha que ele Trouxe. 
-  São. De uma certa forma são como eu e você, mas são bem diferentes, se é que você me entende.
-  Mas são gente, né? – Insisti.
-  É. São. 
    Usou da chave roubada na sala dos professores dois dias antes, tinha pressionado num sabão de barra e feito uma cópia. Ninguém nem percebera o acontecido, ponto pra nós dois. Íamos entrar, trocar umas palavras com eles e, antes mesmo de alguém se dar conta, já estaríamos em casa.  A chave deu três voltas, depois um clique. Ele abriu a porta. Ambos ouvimos um rangido. Lá longe a mesa do professor e umas poucas carteiras de alunos espalhadas pela sala, quebradas, queimadas, não sei como, empilhadas no centro da sala como se prontas para uma fogueira santa, sendo gotejadas por um filete de água que descia do ventilador torto. 
 

 
5)
    Com o passar das semanas e dos meses, minhas costas criaram feridas dolorosas de onde brotava uma água podre que escorria pelo colchão. Acabei vivendo encharcado sem precisar de menino algum me molhar com mijo ou que tentassem me afogar num copo de água. Como meu estado de saúde piorara com o passar do tempo, a enfermeira avisou meus tios para que me visitassem mais vezes – como se eu quisesse isso – e, para minha sorte ou desgraça, recebia a visita dos três todos os dias da semana. Não me deixariam morrem em paz. 
    Na cama o corpo desfalecido; seu desencarne seria um prêmio de consolação para tudo o que me submetera sem reclamar e depois aceitando o sofrimento como o único responsável por tudo aquilo. O tio da seita Boudística aparecia duas vezes na semana, carregava consigo meu primo, e posso te dizer que tentaram me afogar em coisas bem menos higiênicas que um copo de água. Teve dias que aumentavam a pressão do ar e me assistiam debatendo, afogado pelo excesso de oxigênio, incapaz de engolir tamanha quantidade de vento. Subiam e desciam a pressão bem rapidinho pra ninguém ver, mas eu via, sentia tudo, e também não posso esquecer que sempre aparecia com uma mulher diferente, apresentava-a a mim, batia no meu ombro. 
-                     Não é pro seu bico, hein? – Por dentro eu ria. O primo parecia remoído por ter feito aquelas coisas comigo e acabou trazendo flores, coisa rara, odeio flores, principalmente lírios. Trazia e deixava no pé da cama. Com minha cara inclinada pra frente piscava duas vezes, um agradecimento, um pedido de desculpas? Minhas ou dele?  E o ritual se repetia, um entra e sai interminável no quarto, uma visita depois outra, gente que nunca vi, e deles vinha o respeito e a compaixão que nunca tive e que nunca recebi e um amor impagável que tanto reneguei. 
   Ganhei um santinho, era outro Jesus, desta vez pequenininho, fora o primo que trouxe. Deixou na mesinha ao lado da cama. 
-                     É pra quando tu for rezar... agora tem dois... – Sentou do meu lado. Só respirava, a mangueirinha soprando o vento no meu nariz. Começou a chorar, me abraçou e desabou em lágrimas, meio deitado, meio sentado. –  Eu sei que tu acredita nessas coisas, sei disso, todo mundo sabe, tem gente que fala que é coisa do capeta, meu pai também acha que é, mas foi depois que tu passou a acreditar nessas coisas que parou com a maldade. Não desacredita não. – Apertou com força minha mão direita. - Continua com suas crenças. – Falou. Depois pegou outro tom, enxugou as lagrimas e depois de um silêncio breve desabou mais uma vez. - Me desculpa, eu não queria fazer essas coisas...  não sei porque fiz, sabe? Só fiz. Meu pai é um bosta, tu sabe disso... – Falou tanta coisa que fui perdendo minha paciência, era o momento do remorso, aquele momento que sabemos que a pessoa não volta mais e já não temos tempo de pedir desculpa com atitudes, dai começa a falação, inventando desculpas praquilo que fez a vida toda. Acaba que pode ser o momento exato do arrependimento, o tempo certo de se converter e eu e você viramos o evangelizador do bem. Se ele tivesse feito outro sofrer e sido pago com o mal, nem teria percebido a dimensão do feito, continuaria o mesmo. E não é sobre afogar pessoas em urina ou num copo de água, é sobre tudo um pouco, é sobre ter uma moralidade estética e odiar não o que é errado, mas o que é mais feio, mais estranho, não pro outro, mas pra si próprio. A moralidade estética é o grande mal do mundo. Os dois eram assim, gente desse tipinho que torce a cara pras coisas quando está em público e depois aplaude quando ninguém vê, ou odeia o outro por ser feliz; felicidade alheia dói na alma de quem é triste por dentro. 
   É gente mal amada, que não se entrega, que tem medo de amar, mas é gente sensata, e que sabe: vai tudo acabar em pó, o dono das coisas e as coisas de que ele é dono. O mundo é assim, de gente que, pra não sofrer a dor da perda, escolhe não se alegrar pelo ganho. 
   E não sorri quando ganha e não chora quando perde e não grita de medo e não chora de angústia e não chora, e não vive. 
   Depois de ter falado tanto, levantou e saiu como se nada tivesse acontecido. E naquele mesmo dia recebi a visita dum casal de idosos, o velho não tinha um dos braços. Eles ficaram de pé ao lado da cama, em silêncio, como todos os outros haviam feito, depois começaram a falar comigo. A mulher deixou flores vermelhas ao meu pé. 
-  Sabemos que você não gosta de flores, mas estas não são deste mundo, você sabe disso. – Disse. Me deu um beijo na testa. – Nós não vamos te abandonar, você nunca esteve sozinho neste mundo, nem quando os outros te odiavam, e com razão – Sorriu como se falasse uma verdade inabalável. Eu não precisava dizer as palavras, apenas imaginava-as e era o suficiente para que os dois entendessem. Então imaginei, disse tudo o que me estava entalado há anos. 
-  Por onde andaram que nunca os vi aqui? Me senti abandonado... eu sei que mereço todo o mal que me acontece, mas a solidão diante do medo, isso já é de destruir qualquer um. – Perguntei, sem mexer um músculo. 
-  Sempre estivemos aqui, como o ar que você respira, igual as bactérias que você não vê e que por muito tempo foram negadas. – Respondeu o velho. Passou a mão no toco do braço e continuou. – Não merecemos nada no mundo, veio tudo das buscas incessantes, até o mal que te arrastou pra essa cama fora buscado. Que venha a nós o nosso reino. O seu reino, agora, é de desgraça e ódio. É tudo o que você plantou no passado. 
-  Mas eu perdi tudo o que tinha! 
-  É tudo emprestado, até seu corpo, seus pais, sua casa, suas coisas. Como você pode perder algo que nunca teve, que nunca vai ter? Não viemos deste mundo. – Olhou pro braço. Respirou fundo. – Perdi na linha do trem quando menino. Fui brincar com uns amigos e atravessamos uma ponte na volta, deitei entre os trilhos pra me salvar, os outros dois pularam de lá, um deles se afogou. Minha roupa se prendeu no trem e fui arrastado, um dos braços ficou preso... olha, nem lembro direito o que aconteceu. Não morri naquele dia por milagre. 
-  E acha justo ter perdido o braço? 
-  Ah... a justiça? O desenho de todas as coisas consumadas, da ação do tempo e a soma de todas as ações, se você não paga pelo mal que faz ao mundo, são os outros que sofrem com ele, é o pêndulo que você empurra e depois ele volta quando se está distraído, esquecido. Só te digo uma coisa: você merece cada gota deste mal...  
-  Faz tempo que percebi isso, já me rendi, aceitei tudo isso. – Não podia negar, de certa forma causei essas coisas em mim. 
-  Agradeça não por aquilo que se tornou, mas por aquilo que nunca chegou a ser. – Fechei os olhos, chegou o sono, como sempre; momentos de lucides e depois uma força irremediável surgia tirando minhas capacidades de manter os olhos abertos. 
Dormi. 



  

     
      6) 
    Na sala, as cadeiras amontoadas, e lá no meio começou a brilhar alguma coisa, uma gaiola de pássaros cercada por cadeiras e mesas quebradas. Em seu interior uma vela que, como negava a lógica, não parecia ter quem a acendesse. Não havia cera acumulada em sua base, e ela tampouco diminuía, era fixa no mesmo tamanho. A gaiola não tinha porta e a vela estava presa dentro duma bola de vidro, totalmente selada em seu interior. 
-  Disso que você falava? – Sentei no chão, apontei para a luz. – Mas que palhaçada é essa? Foi você que fez isso? 
-  Claro que não. Outro dia eu entrei aqui de enxerido e vi a gaiola, achei que era feitiçaria, nem toquei. Depois que voltei na outra noite e percebi que a vela tava do mesmo jeito. – Ozório. – Mudou de tom. -  Acho que ele quer falar alguma coisa conosco! – A vela apagou repentina. Paralisamos de medo. Depois reacendeu, como se concordasse. 
-  É uma lâmpada, certeza que é! – Eu disse. – Deve ter um fio atravessado num ângulo qualquer, qualquer coisa, cara. Não tem cabimento. – Enfiei a mão por entre as cadeiras, toquei na gaiola. 
-  Não toque! – Gritou. – Não toque! – Repetiu. Fiquei paralisado, a voz vinha da gaiola, o gordo nada tinha falado. Nos encaramos tentando entender aquilo. 
-  Não fui eu! – Sussurrou. – Pode ter certeza que eu não falei um “A”. Você viu... 
-  Gravou alguma coisa e colocou lá dentro, com voz diferente. Foi isso que fez. – Dessa vez tomei coragem e encostei na gaiolinha. 
-  Que... que merda é essa? – Era esfumaçada, não tinha consistência sólida, como uma espuma que se passava a mão, perdia e retomava a forma. – Você se superou dessa vez, sério mesmo! 
-  Não crê? O que mais é preciso para que aceite fatos inegáveis? – Era a voz mais uma vez, veio e não trouxe tanto pânico como antes. 
-  Prove que você não fora feito por ele! 
-  Que quer que eu faça, garoto? Que lhe dê dinheiro? Não posso fazer essas coisas... 
-  E o que faz uma vela falante presa numa gaiola? – Dei uma risada, daquelas bem sarcásticas, envoltas em deboche. – Hein, o que pode fazer, senhor vela?  
   Silêncio.  
   A o fogo da vela perdeu intensidade até quase apagar e a multidão de barulhos que vinha acompanhada de sua voz se perdeu como fumaça de cigarro ao vento. 
  Silêncio...
  Silêncio. 
-  Garoto estúpido, nem se eu lhe fizesse engolir as verdades do mundo, ainda assim não acreditaria nelas, assim como é como todos os outros que vieram aqui e me difamaram.  
-  Eu não posso acreditar em algo só porque vejo, senhor vela. O mundo é cheio de coisas que vemos mas não enxergamos, o senhor mesmo sabe disso. Se é um espírito sabe bem das coisas invisíveis que todos ignoram.
Bom. Agora que acabei tocando no assunto, o senhor é um espírito mesmo? 
-  Se chama de espírito toda consciência que não podes enxergar, sou sim. 
-  Hmm... – A porta da gaiola se abriu e a vela atravessou a bolha de vidro, acabou pousada no chão, bem diante de nossos olhos. 
-  Não tem o que temer. 
-  Porque não há nada aqui. – Retruquei. 
-  Você vai irritar ele. – Falou meu amigo. – Quando ele fica bravo as coisas dão errado. 
-  O que, a vela apaga? Ele vira uma lâmpada? 
-  Para com isso! 
-  Ele vira uma lâmpada? Vira? – Olhei fixamente para a vela. – Belo truque, vim só por curiosidade mesmo. Agora vou embora, até logo. – Sim, leitor, Fui até a porta, como o senhor é esperto! Que ousadia supor tal coisa! – A criatura me envolveu em chamas, um fogo azul que não me queimava, mas me fazia sentir frio, um frio vindo de dentro. 
 
       7) 
     Sou grato por tudo aquilo que sou, e mais ainda por aquilo que nunca cheguei a ser. Devo mais gratidão a todo mal que fora livrado, sou mais grato por tudo aquilo que nunca fui e por aquilo que não nunca serei. Sou uma partícula insignificante do mal do mundo, das coisas manifestas em mim; sou cego demais e só enxergo aquilo que sinto, confesso. 
         Também digo que as pessoas é que dão sentido e significado aos lugares – quando elas estão e também quando não estão – e me fazem querer paz, desejo a ausência delas, vou pro meu mundo vazio que só amei um dia por estar insatisfeito com as ruas lotadas de gente oca. 
         Também não tive compaixão por muito tempo; desejei ver nos outros aquilo que não consegui fazer nascer em mim, e odiei no mundo tanta coisa, virei os olhos pras coisas materiais que se acabam em pó e não pude ver o sentido real do mundo, sim, real, real no sentido que algo pra ser real deve durar pra todo sempre, e de sempre eu entendo como algo que não pode ser roubado ou destruído pelo tempo; o conhecimento; as dádivas raciocinantes; a misericórdia e a compaixão que são sentidas pela alma atormentada até o último dia de vida – e não só essa, mas todas as que estão porvir. 
      Raciocinei uma vingança torpe contra o mundo odiando quem não podia retribuir meu mal e amando quem me pagava com a mesma moeda; odiando quem ama e amando quem odeia; a lógica invertida da mente doentia. Com meu mundo em guerra e partido si, desabei em mim. Mas nenhum mal retribuído pelo mundo fora mais doloroso que o sumiço dos meus pais, as únicas criaturas que um dia amei de verdade e que sumiram, assim como nenhum outro fez, sumiram sem deixar notícias e sem mandar recados; deixaram um buraco na alma, na verdade, virei uma peneira juvenil. Com meus vinte e poucos anos morei com a vó, eu, Ozório, menino de pele clara, professor carrasco e aluno insignificante, fiquei só no mundo, entrevei-me numa cama por motivos silenciosos que ninguém nunca soube ou se souberam não contaram. Perdi os pais da forma mais indigna possível; não sei onde estão, sumiram como as canetas velhas ou como as paletas de violão, e não deixaram recado. 
    Tive tempos de insegurança antes de progredir como professor, e não era um simples frio na barriga, era medo na alma ao ponto de me castrar diante da sala. Só de me imaginar entrando porta a dentro as coisas começavam a estremecer; via uma gola torta, uma calça esquisita; sentia-me rouco; tremia as mãos; esquecia as matérias antes mesmo de abrir a boca. Daí vinham os alunos mais torpes e me puxavam pela mão porta a dentro, sorriam de alegria, ia eu rendido pelo encanto, entrava, me sentava. 
   Chamada feita, sala em ordem? Não. Nunca! Nem nas minhas outras encarnações tal coisa aconteceria. Conversinhas ao fundo, briguinhas entre os garotos mais e velhos contra os mais novos... Lembro da vez que um tal de Salomão enfiou uma tesoura no olho esquerdo doutro menino menor, voou sangue na carteira – por sinal ele estava sentado e o outro lhe enfiou uma tesoura olho a dentro. Alguns riram do caso, as gêmeas Lo e Isie expulsaram Salomão na base dos gritos, ignoraram o tamanho do garoto, as outras meninas gritaram e correram pra fora, histéricas. Reviraram as carteiras de toda forma e eu, o insignificante e carrasco professor, fiquei paralisando vendo o garoto de pé. A sala se esvaziou e todos saíram em pânico, era final de ano, cuidava eu da última turma da escola – uma bela jogada do destino em me assegurar sofrimento e traumas – ficou eu e o garoto em sala, até hoje lembro de cada momento milimetricamente, lembro do uniforme; bermuda verde e blusa branca estampada com um menino segurando um punhado de balões. Àquela altura estava empapada do sangue que escorria do olho esquerdo passando pelo canto da boca e descendo pelo pescoço até tingir a blusa com o vermelho inocente do garoto. Não sei quanto tempo durou, uns trinta segundos, talvez, ele chorou alto engolindo o sangue que descia desaforado boca a dentro. Fiquei imóvel.
     Foi o dia mais nauseante da minha vida, ainda tenho pesadelos com o menino e com a sala desorganizada, mas se engana quem acredita que abandonei a carreira depois disso; a falta de dinheiro nunca permitiu e resolvi tesourar meus medos, cortei-os pela raiz. É fato que não demorou muito proutros casos ocorrerem, era menino cortando o outro com estilete, era briga com mesas voantes, e aquela não fora nem a primeira nem a última vez que vi sangue jorrar dentro de sala. Mas é interessante perceber a carência que os professores carregam. De certa forma, temos a necessidade de falar em público, de expor raciocínios e até mesmo ajudar os outros. O desejo vindo da alma suporta as pressões deste tempo.
















8)
   Eu que fui ingrato com as coisas que um dia tive, que desacreditei no valor da vida alheia; desastrado com os sentimentos e ridículo com as palavras, certamente o destino fora justo comigo em detrimento de todo mal que pratiquei. 
   Como muitos, como quase todos, a mentalidade dinheirista comeu todos os sentimentos que deveriam ser eternos e dilacerou os mundos reais. As coisas que comprei ficaram velhas e desagradáveis e nasceu meio mundo de entulho em meu caminho, acumulei realidades paralelas insustentáveis que eram substituídas. Não me renovei, por isso meu mundo se acumulava, me senti inflado demais e estabelecido na absoluta pobreza. Fui moralmente pequeno, debochado, digno de pena, mas como deve ser, não recebi perdão sem estar arrependido ou sem ter sofrido as punições; só o remorso cura a conduta demoníaca. Só o pecado sincero será perdoado. Foi como se olhos invisíveis observassem cada passo meu e olharam sim, olharam tudo, eles sempre estão por perto... 
   O fogo não doeu, mas fui envolto numa imensidão de verdades ditas pelo espírito da vela. Como dói lembrar daquilo... ele falou na minha cabeça, anunciou que um dia eu seria professor, que pagaria por todas as coisas feitas aqui, e neguei por tanto tempo como fruto de uma alucinação momentânea até que a doença me mostrou a verdade. O que arde no peito é o susto, a vergonha, o horror, o desespero em não saber quanto mais se oculta. O que se descobre é: aquilo que se pulveriza com a mentira não é o discurso, nem a conduta; é a infinita realidade que existe presa ao fato, é que precisávamos daquele justiceiro que nos carregou nos braços e agora se foi e caímos no chão sujo e molhado do pântano da verdade. O que é real nem sempre é bonito. O que é bom causa desconforto e as promessas escassas deste tempo são o orgasmo repetido e feito no vício daquele que sente só o próprio corpo. É insuportável negar a única realidade que vivi nestes longos anos aprisionado num corpo incapaz de perceber a verdade eterna, a única.




9)

    Eu não devia ter irritado a vela. Depois de me envolver em chamas, começou o discurso mais aterrorizante da minha vida, o que, de certo modo, me fez renegar tudo o que fui um dia. A sala vazia que encontrei quando menino, as carteiras reviradas, os acontecimentos estranhos daquela noite... neguei tudo por tanto tempo.
“São todos iguais, só enxergam uma única realidade, só entendem aquilo que tocam e só respeitam o que pode lhes matar... respeito? Respeito? Onde está o respeito para com as coisas que não são deste mundo? Quer provas e raciocínios? Quer um fato mais profundo que a mãe sentindo a morte do filho? A cura espontânea de uma doença sem o toque da tal medicina? Um sujeito retirado do reino dos mortos no seu último suspiro? O que quer, Ozório? Quer que desça dos céus a verdade como antes e que ela seja morta por vocês mais uma vez? Eu te digo, se dependesse de mim, toda sua raça viraria pó, tudo o que conhece e ama seria reduzido a nada, e todos os seus pedidos de misericórdia e cura ladeados com a desgraça que causaram na vida dos outros. Pela boca maldita dos homens há de nascer e morrer todas as ditaduras, pelo infinito descaso com a verdade: sua raça não suporta a verdade, vocês não se suportam, não há nada de sagrado no solo do homem e é bom que ele sofra para que expurgue qualquer noção de valor que um dia teve e que se desacredite até o nada; vocês não têm valor para além de um peso morto, são insignificantes. Me diga uma única coisa, Ozório, uma única estrutura que esteja sob suas ordens que seja eterna! Aponte algo na história humana que ainda vive hoje e que não está fadado a acabar! É tudo pó, não é mesmo? É tudo cálcio da terra, a sujeira do chão, e é de lá que você veio? Eu digo que não, que só os seus deuses materiais vieram de lá assim como a linguagem que vocês usam para definir as estruturas pensantes chamadas “Deus”, sua linguagem é fraca, suas mentes não suportariam entender outras realidades sem antes nega-las até o último instante; reviverá inúmeras vezes para provar que a morte existe, mesmo sendo eterno... somos eternos, Ozório, sua mente é reciclada e não há energia a menos no todo, mas de suas verdades não posso dizer o mesmo, nem de seu mundo fadado a virar pó...” Encheu-me de raciocínios que profanaram qualquer ideia de certeza que um dia tive, e reduziram a nada todo o entendimento da realidade. Neguei aquilo por tantos anos, “O adulto empobrece suas palavras para falar à criança, e o homem que salva vidas se sacrifica ao ceder o discurso ao assassino. As coisas fadadas à destruição nunca deveriam ter nascido, assim como as ideias fracas, os raciocínios ilógicos, os sentimentos de posse e de negação da autoria; seu mundo é fadado à destruição, seu corpo e suas ideias. Por isso, num mundo perfeito, na verdade absoluta que tanto busca, você não existe, o Eu não nasceu. As coisas que acabam serão abortadas até a extinção, só o eterno restará! Seu corpo não é eterno, nem suas ideias... meu filho, você cogita ser algo, cogita existir um dia, a partícula imortal que vive ai, a única coisa que se salva, você renega, o simples fato de renegar suas formas imortais já é a renúncia àquilo que você sonha em ser, e que fique claro – seremos abortados e destruídos até que todas as coisas acabáveis sejam nada... a camada eterna aparecerá por debaixo da carne crua e das ideias frágeis... o tempo é o assassino e o renovador do mundo...” Guardei essas coisas comigo por muitos anos, não dei a menor importância, achei ser penas um discurso pronto daqueles que se faz pra formatura dos moleques de ensino médio. Saímos daquela sala depois de duas horas de conversa com a entidade, ele falou initerruptamente sobre as coisas do passado, do futuro, e o doxa, o tempo invisível que nos fora apresentado. Segundo ele, as coisas que vivem no doxa não podem ser vistas pois tudo o que vive noutro tempo se materializa doutra forma, se nosso tempo é escasso, de certo ele caminha para o aborto, e nossa realidade é a menor em relação a todas as outras. 
   Depois da doença comecei a sentir a tal realidade paralela, coisa que, segundo ele, só se sente, em pessoas normais quando os limites da vida são tensionados. Tantos raciocínios me vieram com a doença, com a negação da matéria... meu Deus, quanta gente frouxa neste mundo! É gente que não merece o pouco que tem e que não consegue exorcizar o próprio mal, como poderiam salvar o mundo? Eles não viveram as guerras, não assistiram o sangue jorrar da terra nem viram homens e mulheres amputados correrem em busca de socorro, mas sofrem como se fossem as vítimas das bombas... como sofrem! Pedem socorro por um mal que nunca sofreram... são frouxos, e não viram o inferno que a vida pode ser. Vivi meu Doxa por alguns anos e digo com toda sinceridade que, se não tivesse me rendido, ainda estaria nele até hoje. 
   Mas antes de prosseguirmos, quero lembrar do pouco que ainda me é permitido saber sobre mim mesmo, dos tempos saudáveis na casa de vó e quando meus pais ainda viviam aqui. Vou confessando as coisas e você, como bom amigo que é, saudável e perfeito, me julga como bem quiser. Agora, meu corpo perdeu os sentidos. Foi depois daquele banho pós mijo. Quando voltei pra cama tudo piorou, e muito, muito mesmo! Perdi quase toda a audição e fui ficando cego de modo a enxergar apenas vultos.  Quatro semanas depois apenas sentia a pulsação do corpo capenga que me restara, lá, preso nos raciocínios e só neles. Percebi que o Doxa existia realmente quando tudo o que me tornava humano fora extinto e ainda conseguia pensar com relativa perfeição, sentia o entra e sai de gente no quarto, e, o que me revelou a realidade paralela fora os cheiros e a visão; aqueles que ainda estavam vivos eu sentia apenas pelo toque, os outros, que viviam no doxa, podia ver, conversar e, quando sentiam pena de mim, me consolavam, falavam que era um situação passageira e que logo estaria livre do corpo humano sujo e decadente. Diziam as coisas que convinham para me consolar, e posso dizer que já não me importava com aquilo. Eu perdi todos que um dia amei, meus pais, meus avós, meus amigos... só restou o homem doente visitado por dois mundos. Foi ele quem me trouxe um pouco mais de paz e de razão. 
  Agora sou grato por tudo aquilo que não sou mais.  E agradeço por ser um cadáver. 


 
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João mendes

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A parte que vos toca é bem diversa. Aqui e ali, neste sincero e humilde blog, veremos os mais diversos pensamentos, todos compondo uma única série literária - a teoria Vartoliana. Com a leitura completa dos romances e contos, os senhores entenderão o contexto e perceberão que minha literatura tem várias faces; instrutiva, reflexiva, didática e, se me permite, banal; que é exatamente onde aplico minhas atenções para o entendimento comum da obra.

Imortal, demasiado imortal.

       Sei da saudade que sinto do mundo lá fora. Preso aqui, dentro de mim, já não enxergo nem um palmo na escuridão profunda da verdade! ...

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